sexta-feira, 5 de junho de 2009

Qual a função do profissional de Relações Internacionais? Ou sobre qual é o nosso papel na academia, no mercado e na sociedade? (Parte – II)

Continuando a reflexão iniciada aqui

É indiscutível que a noção que seguimos de ciência social e sua função ontológica afeta sobremaneira todas as duvidas enumeradas acima. Alguém racionalista verá a ciência como a busca (eterna por definição, inatingível em essência) da verdade ontológica, que pressupõem distanciamento, neutralidade, tratamento objetivo e metodológico dos dados produzindo resultados que podem ser falseados.

Um dos grandes problemas dessa discussão reside aí, não há no campo das relações internacionais, uma auto-imagem definida do papel do analista, alias as ciências sociais como um todo, sofrem com o dilema entre os mais “científicos” e os mais “revolucionários”, com acusações mutuas de distorção de fatos e métodos para alcançar e defender seu ponto de vista.

As correntes mais revolucionárias tendem a recorrer ao relativismo para tentar provar que não é possível que uma ciência social abarque a verdade, pois essa seria multifacetada por natureza. Essas correntes tendem a entender qualquer construto que objetive a verdade como uma construção de uma verdade relativa a um grupo social. Assim esses grupos quando ligados a reflexão teórica tendem a negar a ontologia nas relações internacionais, sendo críticos dos modelos estabelecidos e tendem ao trabalho de desconstrução da linguagem na busca da prova da sua hipótese fundadora. Portanto para esses grupos a função do cientista social seria transformar a realidade, não há dúvidas que o fim de experiências práticas de algumas ilusões utópicas do século passado arrefeceu por um tempo essa linha de pensamento, mas que rapidamente se re-conformou.

Creio ser obvio para os que acompanham meus escritos que não sou partidário dessa linha de pensamento, não que eu negue que caiba aos acadêmicos formular cenários sobre o que deveria ser, mas creio que cabe também e fundamentalmente descobrir o que é de fato, por que assim o é. As forças que estão envoltas e os germens de mudança dessa realidade que possam estar latentes.

Nesse sentido vejo o papel do acadêmico, como o de formular cenários possíveis e ideais no campo das relações internacionais, entender as forças que regem os cenários reais e que impendem os cenários ideais, não com intuito de engendrar uma engenharia social, mas sim para que sirva de subsídios para que a sociedade como um todo conheça suas opções, conheça os caminhos que podem estar a frente e possíveis conseqüências de escolher tais caminhos, assim, como acadêmicos não nos cabe decidir o modelo de inserção internacional que nossas sociedades desejam seguir, mas assim apresentar opções para que as forças sociais organizadas democraticamente atuem no sentido de influenciar as políticas estatais no sentido que esses grupos acreditam ser o melhor, aceitando, contudo, que no jogo democrático acomodações são necessárias.

Como isso difere do grupo que manifesto não fazer parte, difere nas nuances, ou seja, a meu ver, fazemos ciências com objetivos ontológicos e a partir das conclusões das pesquisas apontamos cenários, ou seja, esse cientista por ser mais autoconsciente (em tese) age menos como ativista ideológico e mais como cientista na acepção mais nobre da palavra, aceitando assim não só o debate formal, mas o debate verdadeiro em que se ouve o outro lado, não no intuito de defender apaixonadamente e cegamente um ponto de vista, mas aberto a possibilidade de revisar seus métodos e conclusões, a partir de argumentos satisfatórios.

Não sei se ficou claro o que entendo por ser o papel do cientista, então reitero resumidamente que cabe ao cientista social das relações internacionais na academia descobrir ou tentar descobrir a verdade ontológica sobre as relações internacionais. Sem se preocupar no primeiro momento com a utilidade prática de suas descobertas, contudo, os desenhos institucionais inibem de certa maneira essa pesquisa despreocupada, já que a pesquisa demanda recurso monetário, que podem fluir mais para campos e linhas de pesquisa com convergem com os interesses dos financiadores.

Assim, existe esse problema entre pesquisa e formulação acadêmica de engenhos justificadores de posições partidárias, organizacionais, setoriais, ideológicas. Há uma solução que acomoda essas duas necessidades que é uma solução bastante inerente ao caráter individual de cada um, que é a honestidade intelectual (e por conseqüente ética profissional). Não sou contra que os estudos tenham aplicabilidade prática (por sinal consultoria que exerço nada mais é que utilizar meus conhecimentos para o alcance das metas do meu contratante), mas mesmo feita “sob encomenda” essa pesquisa não pode ser manipulada de má-fé para alcançar os pressupostos de quem banca deve ser antes tudo coerente com o pesquisador, seus métodos, seus fundamentos teóricos, por que caso contrário o cientista social e profissional de relações internacionais, perde a sua integridade e o reconhecimento dos seus pares, que não podemos negar nos é caro.

Por sinal esse reconhecimento da comunidade cientifica é outro fator que influência o que escrevemos, por que não são poucas as vezes que cedemos a tentação de escrever para obter a aprovação dos nossos colegas se isso por um lado cria linhas de pesquisa coerentes o que forma uma escola de relações internacionais, por outro pode por comodidade ou carreirismo levar profissionais a não questionarem pressupostos que percebem como inválidos ou mal-interpretados, no âmbito do serviço público, por exemplo, pode levar assessores a ratificarem posicionamentos de decisores partidários, Ministros de Estado, ou segundo escalão, mesmo funcionários de carreira, que julgam ser impróprios para o interesse nacional, ou do organismo em que trabalham.

Considerações a guisa de conclusões

Portanto o papel individual que nos cabe na academia prioritariamente é o de ser honesto intelectualmente, dedicado aos estudos, a busca pela coerência e por um autoconhecimento axiológico, que nos permita filtrar ao máximo nossos preconceitos, e assim tentar ser o mais objetivo e distante possível do objeto de análise, almejando a neutralidade (se é possível ou não, não cabe aqui discutir).

No mercado (publico ou privado) temos a responsabilidade ética com nossos clientes de propor as melhores formulações que somos capazes, com a consciência de buscar pelas melhores informações disponíveis e sabendo que a conseqüência de nossos erros.

Na mídia nosso papel é contribuir para o entendimento do mundo, para dissipar preconceitos, para tentar traduzir da melhor maneira possível as alternativas que existem de inserção.

E como cidadãos somos livres para seguir os caminhos que quisermos, defendendo nossos pontos de vista, respeitando o que considero o valor máximo de um profissional de nível superior que é seu compromisso, acima de tudo, com a honestidade intelectual.

Multiplicidade de interpretação e multiplicidade teórica e até correntes negacionistas da existência da própria disciplina serão sempre características do campo das relações internacionais, a meu ver, mas como cientistas nós temos a obrigação de promover não só debates epistemológicos, mas também, buscar a auto-reflexão (não confundir com correntes reflexivas de interpretação) individual, sobre nossa atuação, nossa maneira de trabalhar e nossa maneira de fazer ciência, uma reflexão pautada pela honestidade intelectual e desprovida de egos inflados.

Quer se adote ou não a afirmação construtivista de comunidades epistêmicas, é inegável que nossas atuações moldam de certa maneira a agenda, a noção de interesse nacional e a práxis nas relações internacionais é preciso ter consciência do que isso significa, reitero não obstante as correntes teóricas e as visões de mundo. Como sempre cabe a cada um achar o seu caminho, a cada comunidade acadêmica, cada universidade, cada grupo de pesquisa formal ou informal, cada think tank, conduzir sua reflexão sincera.

De modo mais amplo e geral, afirmo que nosso papel primordial como cientistas e de nossa disciplina é com a construção do bem-estar da humanidade, é contribuir para isso como nossas ações e intelectos. (com o risco de ser muito contradito e repudiado)
Fica o convite a todos, reitero, não obstante afiliações teóricas, ideológicas, metodológicas, a pensar seu próprio pensamento. Sei que pareço disco arranhado, mas ninguém pode dizer que não busco estimular essa reflexão por vários pontos de vista e mecanismos analíticos.

P.S: Sempre há uma pegadinha nessas afirmações categóricas e de caráter universalista e na minha afirmação a pegadinha reside na definição de bem-estar, que deixo propositalmente sem uma clara definição, por quê? Ora, como democrata que sou deixo por conta de cada corrente de pensamento que desenvolva e divulgue sua concepção de bem-estar.

1 comentários:

Anônimo disse...

cientistas sao curiosos mais princpalmente buscam pelo seu desenvolvimento intelectual buscam respostas e soluçoes para fatos que sao realmente importantes para a ciencia e para o reflexo do ser humano

21 de junho de 2011 10:25