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Teatralidade (e sofisticação) do terrorismo por Robert Kaplan

ISISconvoy O renomado “falcão” Robert Kaplan faz uma análise (no texto transcrito abaixo) da teatralidade da execução de James Foley e seus simbolismos, alguns óbvios como a roupa laranja igual a dos detentos em prisões americanas e outra de uma deturpação sinistra de usar as redes sociais do Vale do Silício contra tudo que seus criadores valorizam. Terça-feira eu escrevi que a maldade do Estado Islâmico serve a objetivos racionais, aliás, é bom que se perceba que ser capaz de observar que certos grupos têm objetivos racionais não significa defender, concordar ou achar que essa racionalidade tem sanidade. E Kaplan captura isso com uma acachapante argumentação que completa minha análise já citada além de objetivos racionais a maldade também é sofisticada.

Leiam abaixo o texto, em seu original na língua inglesa.

Terrorism as Theater

By Robert D. Kaplan

The beheading of American journalist James Foley by the Islamic State in Syria and Iraq was much more than an altogether gruesome and tragic affair: rather, it was a very sophisticated and professional film production deliberately punctuated with powerful symbols. Foley was dressed in an orange jumpsuit reminiscent of the Muslim prisoners held by the United States at Guantanamo Bay. He made his confession forcefully, as if well rehearsed. His executioner, masked and clad in black, made an equally long statement in a calm, British accent, again, as if rehearsed. It was as if the killing was secondary to the message being sent.

The killing, in other words, became merely the requirement to send the message. As experts have told me, there are more painful ways to dispatch someone if you really hate the victim and want him to suffer. You can burn him alive. You can torture him. But beheading, on the other hand, causes the victim to lose consciousness within seconds once a major artery is cut in the neck, experts say. Beheading, though, is the best method for the sake of a visually dramatic video, because you can show the severed head atop the chest at the conclusion. Using a short knife, as in this case, rather than a sword, also makes the event both more chilling and intimate. Truly, I do not mean to be cruel, indifferent, or vulgar. I am only saying that without the possibility of videotaping the event, there would be no motive in the first place to execute someone in such a manner.

In producing a docu-drama in its own twisted way, the Islamic State was sending the following messages:

  • We don't play by your rules. There are no limits to what we are willing to do.
  • America's mistreatment of Muslim prisoners at Guantanamo Bay comes with a "price tag," to quote a recently adopted phrase for retribution killings. After all, we are a state. We have our own enemy combatants as you can see from the video, and our own way of dealing with them.
  • Just because we observe no limits does not mean we lack sophistication. We can be just as sophisticated as you in the West. Just listen to the British accent of our executioner. And we can produce a very short film up to Hollywood standards.
  • We're not like the drug lords in Mexico who regularly behead people and subsequently post the videos on the Internet. The drug lords deliver only a communal message, designed to intimidate only those people within their area of control. That is why the world at large pays little attention to them; in fact, the world is barely aware of them. By contrast, we of the Islamic State are delivering a global, meta-message. And the message is this: We want to destroy all of you in America, all of you in the West, and everyone in the Muslim world who does not accept our version of Islam.
  • We will triumph because we observe absolutely no constraints. It is because only we have access to the truth that anything we do is sanctified by God.

Welcome to the mass media age. You thought mass media was just insipid network anchormen and rude prime-time hosts interrupting talking heads on cable. It is that, of course. But just as World War I was different from the Franco-Prussian War, because in between came the culmination of the Industrial Age and thus the possibility of killing on an industrial scale, the wars of the 21st century will be different from those of the 20th because of the culmination of the first stage of the Information Age, with all of its visual ramifications.

Passion, deep belief, political protests and so forth have little meaning nowadays if they cannot be broadcast. Likewise, torture and gruesome death must be communicated to large numbers of people if they are to be effective. Technology, which the geeky billionaires of Silicon Valley and the Pacific Northwest claim has liberated us with new forms of self-expression, has also brought us back to the worst sorts of barbarism. Communications technology is value neutral, it has no intrinsic moral worth, even as it can at times encourage the most hideous forms of exhibitionism: to wit, the Foley execution.

We are back to a medieval world of theater, in which the audience is global. Theater, when the actors are well-trained, can be among the most powerful and revelatory art forms. And nothing works in theater as much as symbols which the playwright manipulates. A short knife, a Guantanamo jumpsuit, a black-clad executioner with a British accent in the heart of the Middle East, are, taken together, symbols of power, sophistication, and retribution. We mean business. Are you in America capable of taking us on?

It has been said that the murder of Czar Nicholas II and his family in 1918 in Ekaterinburg by Lenin's new government was a seminal crime: because if the Bolsheviks were willing to execute not only the Czar but his wife and children, too, they were also capable of murdering en masse. Indeed, that crime presaged the horrors to come of Bolshevik rule. The same might be said of the 1958 murder of Iraqi King Faisal II and his family and servants by military coup plotters, and the subsequent mutilation of the body of Iraqi Prime Minister Nuri Said by a Baghdad mob -- events that presaged decades of increasingly totalitarian rule, culminating in Saddam Hussein. The theatrical murder of James Foley may appear as singular to some; more likely, it presages something truly terrible unfolding in the postmodern Middle East.

To be sure, the worse the chaos, the more extreme the ideology that emerges from it. Something has already emerged from the chaos of Syria and Iraq, even as Libya and Yemen -- also in chaos -- may be awaiting their own versions of the Islamic State. And remember, above all, what the video communicated was the fact that these people are literally capable of anything.

"Terrorism as Theater is republished with permission of Stratfor."
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Contas Públicas e Relações Internacionais

contas publicas As manobras contábeis usadas pelo governo para melhorar os números das contas públicas – que podem até mesmo serem ilegais – são um assunto bem técnico e de difícil compreensão para a maior parte dos eleitores. Por isso mesmo não aparece como deveria nas campanhas eleitorais, mas as reiteradas manobras contábeis do governo e um crescente e altivo desafio ideológico ao “mercado” que enche os olhos e ouvidos dos militantes de emoção, prejudicam o bom andamento das contas públicas, que é Interesse Nacional.

Nesse sentido transcrevo o que publicou Mansueto Almeida (aqui), volto logo em seguida:

O governo deveria estar MUITO preocupado em mandar sinais positivos para o mercado. Ao invés disso, o que se vê todos os santos dias é muita gente declarando em off, na Caixa Econômica Federal (CEF) e no Ministério da Fazenda, o absurdo dos atrasos sucessivos dos repasses do Tesouro Nacional para a CEF pagar benefícios sociais.

Essa confusão já foi esclarecida e vai diminuir? Não. O Tesouro ainda não explicou porque continua a utilizar o seu “cheque especial” na CEF.  As notas de esclarecimento do Tesouro Nacional partem do pressuposto que as pessoas e os jornalistas não entendem nada de contas públicas e, essas notas, não esclarecem coisa alguma. É um exercício fútil de escrever e não explicar coisa alguma. Prefiro as notas em off do Ministério da Fazenda.

Nesta quarta-feira, o jornalista Ribamar Oliveira do jornal Valor Econômico, que dispensa apresentação, fez nova matéria sobre o tema (clique aqui), mostrando os atrasos nos repasses do Tesouro para a CEF pagar o seguro desemprego. E, nesta quinta-feria, o Estado de São Paulo e o Folha de São Paulo voltam a cobrir esse assunto.

Depois vai diminuir? Não. Hoje soube que o próprio Banco Central anda irritadíssimo com este assunto e outros órgãos públicos que fiscalizam as contas do governo também. Que há truque contábil nessa história todo mundo sabe. O que não se sabe é se essas operações, atraso de repasses do Tesouro para a CEF, poderiam ser caracterizadas como empréstimo de um banco público para o seu controlador. Se este for o caso, o debate passa a ser sobre a legalidade ou não dessas operações.

E como se esta confusão toda não fosse suficiente, li hoje no blog do jornalista Vicente Nunes do Correio Braziliense (clique aqui), que há gente do governo querendo, na eventualidade de um novo mandato da nossa presidenta, partir para a briga com o mercado financeiro:

A vingança será cruel: Não é de hoje que o Palácio do Planalto está irritadíssimo com o mercado financeiro. Mas acredita que fará muitos analistas engolirem a vitória da presidente Dilma em outubro. Para assessores da candidata petista, nada será mais gratificante do que submeter, por mais quatro anos, bancos e corretoras que têm jogado contra o governo à política econômica dilmista.”

Se na hipótese, ainda remota, de um segundo governo da nossa presidenta a sua equipe partir para uma briga direta com o mercado financeiro, o custo dessa briga será uma elevadíssima taxa de juros e, possivelmente, o nosso rebaixamento pelas agências de classificação de risco.

O governo não esta nem ai? Tolice. Apesar de falar grosso contra o “dinheiro especulativo” o governo, em junho do ano passado, reduziu de 6% para “zero” o IOF sobre aplicação de estrangeiros em renda fixa. Esses investidores (ou especuladores na linguagem do governo) conseguem aqui uma taxa de juros que não conseguem em nenhum outro lugar do mundo. O governo não só estimulou a entrada de capital especulativo, mas reza todos os dias para que o capital especulativo continue jorrando no nosso Balanço de Pagamentos. O mais engraçado é que tem gente no governo que acha que isso é sinal de confiança.

O governo deve evitar uma briga direta como o mercado no estilo “vocês vão ter que me engolir”. A melhor forma de o governo ganhar a queda de braço com o mercado é melhorar sua comunicação e transparência de suas ações, algo que fez muito bem até 2006. Partir para briga com o mercado é uma estratégia suicida em um país de poupança baixa que precisará de poupança externa para crescer. A vingança será cruel? Vingança de quem cara pálida?

Voltei. E o que as contas públicas têm a ver com as relações internacionais do Brasil? Tudo, a começar pela credibilidade – perguntem aos argentinos – e também por que deixa nossos negociadores com mais recursos e tempo para dedicar a outros temas da agenda nacional. Ninguém quer retornar aos tempos de difíceis rodadas de negociação com Clube de Paris, FMI, US Department of the Treasury.

Como bem colocou Alexandre Vidal Porto na Folha de São Paulo dias atrás: “As instituições do Estado são como casa alugada. Tem de preservar para o ocupante seguinte. Pode até mudar a cor das paredes, mas derrubar pilastra e cimentar gramado nenhum inquilino deve fazer.” O que significa que a manutenção das boas práticas de contabilidade e transparência nas contas públicas deveriam ser mantidas a todo custo posto que são um patrimônio do cidadão brasileiro.

E não importa quem vença as eleições ele ou ela terão que lidar com a REALIDADE econômica e espero que sem os ventos da eleição possa o vencedor ser seduzido pelo pragmatismo de quem deve zelar pelo bem comum.

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Maldade com objetivos racionais

execuçãodeFoley O surgimento do Estado Islâmico (EI) e seu ambicioso plano de recriar o Califado como forma de governo pan-islâmico e seu contigente considerável de soldados nascidos em países ocidentais ilustram a dificuldade do combate ao extremismo.

O extremismo é difícil de lidar, é difícil de punir, principalmente pelas sociedades mais democráticas e abertas que tendem a favorecer a pluralidade de ideais e o livro exercício das diversas consciências religiosas. Numa comparação com redes de informática às sociedades abertas e democráticas possuem falhas exploráveis em sua arquitetura de segurança e arquivos maliciosos (discursos de ódio e extremistas) conseguem explorar essas falhas.

A imigração é fenômeno natural da espécie humana, que sempre busca por melhores condições para sua vida e para o sucesso de sua decendência, mas o ser humano também forma laços culturais fortes que de certa maneira são cerne de sua própria identidade e por vezes a relocação em novos países é acompanhada por um desejo de manter a cultura anterior. Esse fenômeno natural acaba sendo caldo de cultura bem explorado pelos radicais. Não é difícil de ver jovens que buscam laços fortes sendo cooptados para causas que julgam justas, ou você tem dúvida que o cruel algoz do jornalista americano James Foley, tem a firme convicção que seu ato contribui para uma vida melhor e mais justa para os seus?

As táticas do EI são particularmente violentas e cruéis, com crucificações de cristãos, decapitações, execuções sumárias de prisioneiros de guerra, dilapidação de mulheres, espancamento de mulheres por não aderirem aos seus códigos de vestimenta.

É fácil diante das imagens e da selvageria dessas táticas ser distraído pela pura maldade desses atos, mas há racionalidade, táticas, linhas de suprimento sofisticadas e financiamento que sustentam esse grupo que luta uma guerra de múltiplas fontes e com resistências dentro dos territórios conquistados.

A maldade do EI é calculada e serve a objetivos racionais concretos, eles lutam um modelo clássico de guerra para criação de um estado, isso difere o grupo de outros terroristas. O Estado Islâmico é muito parecido com o Talebã.

O Afeganistão nos ensinou algo. A queda do estado Talebã foi rápida e relativamente fácil, mas a derrota da ideologia e do grupo Talebã exige um trabalho de inteligência e de conquista de corações e mentes ao mesmo tempo em que se constrói um novo estado que não pode ser visto como peão de potências estrangeiras. Empreendimento hercúleo que tem produzido pouco sucesso.

O mundo precisa responder a ascensão do Estado Islâmico e seu radicalismo, muito bem conectado com redes sociais e referencias pop no seu “mix” de ferramentas de sedução de apoio. A prova da eficiência dessa comunicação em sociedades abertas e democráticas aproveitando questões e animosidades locais aos jovens imigrantes é que segundo o site Vox a mais pessoas com visão positiva do EI na França do que em Gaza. Mas, como o mundo irá reagir?

Uma estratégia parece estar emergindo que é capacitar os inimigos locais do Estado Islâmico, as vitimas de seus crimes, a lutarem para reconquistar suas regiões, como é o caso dos Curdos, mas se essa percepção minha for real será preciso ajudar Assad em sua luta pela manutenção do poder na Síria. E se assim for, será preciso cooperação Rússia-EUA.

Mas, não podemos esquecer que a forma de organização política no Oriente Médio é cravada na família como ente fundamental da sociedade, famílias que se juntam em clãs, que formam tribos e é preciso entender como esse panorama humano é afetado pelo Estado Islâmico, como ele afeta equilíbrios regionais, o que pensam os seus inimigos, quem são seus apoiadores, por isso é necessário enxergar a lógica da maldade e principalmente o estado das relações e lealdades políticas.

Como bem coloca o STRATFOR tratando da desintegração do Estado-Nação na região:

“The idea that Shia, Sunnis and Kurds can live together is not a fantasy. The fantasy is that the United States has the power or interest to re-create a Franco-British invention crafted out of the debris of the Ottoman Empire. Moreover, even if it had an interest, it is doubtful that the United States has the power to pacify Iraq and Syria. It could not impose calm in Lebanon. The triumph of the Islamic State would represent a serious problem for the United States, but no more than it would for the Shia, Kurds and other Sunnis. As in Lebanon, the multiplicity of factions creates a countervailing force that cripples those who reach too far.

There are two issues here. The first is how far the disintegration of nation-states will go in the Arab world. It seems to be underway in Libya, but it has not yet taken root elsewhere. It may be a political formation in the Sykes-Picot areas. Watching the Saudi peninsula will be most interesting. But the second issue is what regional powers will do about this process. Turkey, Iran, Israel and the Saudis cannot be comfortable with either this degree of fragmentation or the spread of more exotic groups. The rise of a Kurdish clan in Iraq would send tremors to the Turks and Iranians.

The historical precedent, of course, would be the rise of a new Ottoman attitude in Turkey that would inspire the Turks to move south and impose an acceptable order on the region. It is hard to see how Turkey would have the power to do this, plus if it created unity among the Arabs it would likely be because the memories of Turkish occupation still sting the Arab mind.

All of this aside, the point is that it is time to stop thinking about stabilizing Syria and Iraq and start thinking of a new dynamic outside of the artificial states that no longer function. To do this, we need to go back to Lebanon, the first state that disintegrated and the first place where clans took control of their own destiny because they had to. We are seeing the Lebanese model spread eastward. It will be interesting to see where else its spreads.”

Para combater o extremismo do IE será preciso que as sociedades democráticas ocidentais consigam encontrar maneiras de combater a disseminação do discurso de ódio e a atuação de elementos radicais. O que implica em reformas legais delicadas, em muitos casos, é preciso também que se ofereça narrativas atraentes que combatam o discurso radical. Tudo isso sem abrir mão dos valores que construíram essas sociedades, como controle constitucional do governo, rule of the law, liberdades individuais e civis.

Além disso, é claro é preciso enfrentar o Estado Islâmico em combate e reconquistar os territórios que eles dominam, mas respeitando a complexa arquitetura das relações humanas e políticas das diversas regiões.

O tabuleiro é complexo e o jogo é medido em vidas humanas e em sofrimento humano cuja memória estará presente nas próximas décadas, provavelmente por todo século XXI – afinal, famílias irão lembrar mortes e estupros e jovens poderão desejar vingar isso tudo – é impossível não pensar estarão os líderes mundiais estão a altura desse desafio?

Por hora a maldade está vencendo e obscurecendo o cenário e as análises dele. O diabo (metafórico ou real a depender da sua visão de mundo), meus caros, vive nos detalhes.

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E quando a ignorância é divertida? Uma historieta de Francisco Seixas da Costa

apartment_bond_194(1).jpg Estava a escrever uma “relfexão” (se me permitirem tão horrendo neologismo) sobre a Ucrânia e Rússia, mas me deparei com essa pérola do humor e talento literário do diplomata português Francisco Seixas da Costa e não resisti a transcrevê-lo aqui. Comecem bem a semana!

"So sorry!"

Ao final desta noite chuvosa na Holanda, depois de um jantar de trabalho, não resisto a reproduzir um episódio que um amigo britânico, chegado diretamente do "Fringe" festival das artes de Edimburgo, nos contou ao café.

Foi ontem, durante uma atuação de "stand-up comedy". O ator, de nacionalidade alemã, relatou ao público que uma jovem americana que tinha conhecido (ele disse que era loira, mas eu evito referir isso aqui) lhe havia comentado que gostava muito da Europa, mas que achava triste que por aqui se falassem tantas línguas. O alemão, irónico, deixou cair: "Sabe por que é que não se fala uma só língua em toda a Europa: porque nós perdemos a guerra...". A jovem quis ser simpática e logo retorquiu: "Oh! Was that so? I'm so sorry for you!"...

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STRATFOR: Europe's Malaise: The New Normal?

Par7713151 Russia and Ukraine continue to confront each other along their border. Iraq has splintered, leading to unabated internal warfare. And the situation in Gaza remains dire. These events should be enough to constitute the sum total of our global crises, but they're not. On top of everything, the German economy contracted by 0.2 percent last quarter. Though many will dismiss this contraction outright, the fact that the world's fourth-largest economy (and Europe's largest) has shrunk, even by this small amount, is a matter of global significance.

Europe has been mired in an economic crisis for half a decade now. Germany is the economic engine of Europe, and it is expected that it will at some point pull Europe out of its crisis. There have been constant predictions that Europe may finally be turning an economic corner, but if Germany's economy is contracting (Berlin claims it will rebound this year), it is difficult to believe that any corner is being turned. It is becoming increasingly reasonable to believe that rather than an interlude in European prosperity, what we now see is actually the new normal. The key point is not that Germany's economy has contracted by a trivial amount. The point is that it has come time to raise the possibility that it could be a very long time before Europe returns to its pre-2008 prosperity and to consider what this means.

Faltering Europe

The German economy contracted despite indications that there would be zero economic growth. But the rest of Europe is faltering, too. France had zero growth. Italy declined by 0.2 percent. The only large European economy that grew was the United Kingdom, the country most skeptical of the value of EU membership. Excluding Ireland, which grew at a now-robust rate of 2.5 percent, no EU economy grew more than 1 percent. Together, the European Union scarcely grew at all.

Obviously, growth rate is not the full measure of an economy, and statistics don't always paint the full picture. Growth doesn't measure social reality, and therefore it is important to look at unemployment. And though Europe is fairly stagnant, the unemployment situation is truly disturbing. Spain and Greece both have around 25 percent unemployment, the level the United States reached during the Great Depression. While that's stunning, 15 of the 28 EU members have unemployment rates of more than 10 percent; most have maintained that high rate now for several years. More alarming, these rates are not falling.

Half of all EU residents live in four countries: Germany, France, the United Kingdom and Italy. The average growth rate for these countries is about 1.25 percent. Excluding the United Kingdom, their economies contracted by 0.1 percent. The unemployment rate in the four countries averages 8.5 percent. But if we drop the United Kingdom, the average is 9.2 percent. Removing Britain from the equation is not arbitrary: It is the only one of the four that is not part of the eurozone, and it is the country most likely to drop out of the European Union. The others aren't going anywhere. Perhaps the United Kingdom isn't either, but that remains to be seen. Germany, France and Italy, by population if nothing else, are the core of the European Union. They are not growing, and unemployment is high. Therefore, Europe as a whole is not growing at all, and unemployment is high.

Five to six years after the global financial crisis, persistent and widespread numbers like this can no longer be considered cyclical, particularly because Germany is running out of gas. It is interesting to consider how Germany has arrived at this point. Exports continue to grow, including exports to the rest of Europe. (That is one reason it has been so difficult for the rest of Europe to recover: Having lost the ability to control access to their markets, other European countries are unable to compete with German exports. It may be free trade, it may even be fair trade, but it is also a trade pattern that fixes failure in place.) Employment remains strong. The German financial system is viable. Yet consumer and corporate confidence is declining. As we look at the situation Germany is facing, confidence should be decreasing. And that in turn becomes a self-fulfilling prophecy: German employment has been supported by exports, but there is a limited appetite for Germany's exports amid Europe's long-term weakness and a world doing better but still not well enough to float the German economy.

One of the things that should concern Germans is the banking system. It has been the obsession of the European financial elite, at the cost of massive unemployment, and there is the belief, validated by stress tests, that the financial system is sound. For me, there has been an ongoing mystery about Europe: How could it have such high unemployment rates and not suffer a consumer debt crisis? The climbing rate of unemployment should be hitting banks with defaulted mortgages and unpaid credit card debt. Given the fragility of the European financial system in the past, it seems reasonable that there would be heavy pressure caused by consumer debt.

The known nonperforming debt situation is sufficiently concerning. Four countries have nonperforming loan rates surpassing 20 percent. Six have rates between 10 and 20 percent, including Italy's, which stands at 15.1 percent. The overall EU rate is 7.3 percent. Obviously, the situation in Italy is the most dangerous, but there is the question of whether these numbers capture the entire problem. Spain, with 24 percent unemployment, is reporting only an 8.2 percent nonperforming loan rate. Portugal, with lower unemployment rates, has an 11 percent nonperforming loan rate. France (with more than 10 percent unemployment) is reporting only a 4.3 percent nonperforming loan rate. The devil is in the details, and there may be an explanation for these anomalies. But the definition for a nonperforming loan has been flexible in Europe and other places before, and the simple question remains: How can such long-term high unemployment rates not produce significant problems in consumer debt?

It is simply unclear how Europe untangles this Gordian knot. Considering the length of Europe's economic malaise, a strong argument would be required to say this is a passing phase. Given Europe's unemployment, Germany's need to export to the rest of Europe, and persistent weak growth rates now spreading to Germany, it is simply not obvious what force will reverse this process. Inertia is pointing to a continuation of the current pattern. It is hard to see anything that will help Europe recover its vibrancy.

A Political Question

The question that follows is political. If the economic premise of the European Union -- prosperity -- is cast into doubt, then what holds Europe together? This is particularly relevant as the fault line between Russia and the European Peninsula comes alive and as Europe is measuredly asserting itself in Ukraine. Poland's and Romania's interest in Ukraine is clear. Spain's interest is less obvious. The idea of pursuing common goals to preserve EU prosperity doesn't work when the bloc is economically crippled and when signs of divergence are already evident. These include British threats to withdraw from the European Union and the loss of common interests that united the countries when prosperous.

One of the most important signs of divergence is the emergence of anti-establishment and Euroskeptical parties, which did remarkably well in recent European Parliament elections. This political shift has been dismissed by many as merely the result of a protest vote rather than a harbinger of the future. In my view, protest votes of this breadth and magnitude are significant in and of themselves. They remind us that the most dangerous source of social unrest is not the young and unemployed but rather middle-aged men and women who have suffered unemployment and lost their investments. They live in a world of shattered hopes, convinced that others engineered their misfortune. The young throw rocks and then go home. The middle-aged and middle class, having lost their dreams with no hope of recovery, are at the heart of fascism and are the real threat posed by the new European reality.

Russia is important, and so is radical Islam. But the fate of Europe is a vital force that will shape the world. Russian power grows as Europe fragments. Europe has its own internal confrontation with Islam. With long-term sclerosis of the economy and persistent unemployment, how do the Europeans deal with the immigrants among them? How does the Continent accept open borders? The implications are profound, and it is time to consider that a Europe without growth, with high unemployment and with no way out might be the reality for a much longer time than anyone expected.

By George Friedman

"Europe's Malaise: The New Normal? is republished with permission of Stratfor."

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Revista Política Externa entrevista Aécio e Campos

Debate Não gosto muito da temática eleição, já expliquei por alto em outros textos, o que me exaspera é constante disputa por emplacar narrativas a despeito dos fatos. É o ato consciente ou inconsciente dos militantes de transformar opinião em conspiração e por fim a legislação eleitoral que parece mais voltada a proteger as verdades oficiais das campanhas do que o direito dos eleitores de se informarem. Contudo, não se pode brigar com a realidade e a temática eleitoral vai se imiscuir em tudo. Como nossa seara é a das cousas internacionais (ainda que vez ou outra nos embrenhemos pela temática econômica) transcreverei abaixo (sei, sei, ta faltando texto “autoral” também sinto falta) entrevista feita pela Revista Política Externa (vol. 23, n. 1, 2014) com os candidatos Aécio Neves e Eduardo Campos.

ENTREVISTA

As perguntas foram feitas a partir de sugestões colhidas junto ao Conselho Editorial. Não foi dado aos candidatos nenhum limite de espaço para as suas respostas, e elas estão reproduzidas abaixo sem nenhuma edição ou corte.
Os candidatos Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) enviaram as suas respostas no prazo de tempo que foi dado a todos. A candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT) não enviou suas respostas.

Tradicionalmente, a política externa brasileira tem sido concebida como um instrumento relevante na estratégia de desenvolvimento do país. Num mundo cada vez mais integrado e interdependente do ponto de vista econômico, qual a sua concepção desse papel nos próximos anos?

Aécio Neves: Em função do processo de globalização, o mundo está cada vez mais interconectado e afeta todos os países, ainda que de maneiras distintas. É um dado do cenário internacional contemporâneo que as mudanças e transformações alteram a dinâmica de funcionamento do sistema internacional em suas múltiplas vertentes e agendas. Entre elas: a difusão do poder e a crescente multipolaridade, o empoderamento dos indivíduos graças à revolução digital, a velocidade do acréscimo de conhecimentos que altera a competitividade das economias, o aumento da nova classe média mundial devido ao crescimento das economias emergentes, o impacto crescente das mudanças climáticas, as alterações da geopolítica energética, os desafios da sustentabilidade, o tema dos recursos escassos.

Neste contexto, a política exterior precisa ter sensibilidade estratégica e sentido de direção para transformar em oportunidades para o desenvolvimento interno aquilo que efetivamente está ao alcance de um país como o nosso, de escala continental e com ativos relevantes para outros países e para o mundo na atual conjuntura internacional.

Uma faceta desta sensibilidade é a importância que deve ser atribuída à nossa capacidade de participar e influir na governança das instâncias internacionais de decisão política, econômica, social, financeira, comercial, ambiental e de criação de conhecimento científico e tecnológico.

O Brasil historicamente teve presença proativa nas organizações e mecanismos que tratam desses temas. Essa presença deve dar-se em consonância com as nossas realidades. Precisamos contribuir para que o mundo multipolar seja um mundo multilateral dotado de estabilidade, pois o mundo multipolar por si só não é necessariamente positivo e pode trazer tensões e incertezas se não estiver no âmbito de uma moldura multilateral estabilizadora.

Para alcançar esses objetivos, a política externa num mundo interconectado e com crescente número de atores governamentais e não governamentais está sempre relacionada com os dados da política interna, como é cabível numa democracia, e com uma qualificada coordenação de todos os setores do governo. Isso requer liderança presidencial, pois é ao presidente da República que incumbe, nos termos da Constituição, a condução da política externa, e é ele que em última instância representa o país no mundo.

No exercício dessa liderança, é preciso reunir meios humanos e materiais consideráveis, e muito especialmente valer-se do conhecimento e qualificação acumulados pelo Ministério das Relações Exteriores, valorizando-o e dotando-o de recursos necessários, o que não tem ocorrido no governo de Dilma Rousseff.

Nestes quase quatro anos de sua administração, a política exterior tem-se caracterizado pela inapetência, pela timidez e pela leniência. A presidente demonstra falta de interesse em entender as grandes transformações por que passa o mundo. Ela tem dificuldade de compreender a natureza dos mecanismos de decisão e os tempos próprios da atuação diplomática. Diplomacia é processo, e os resultados devem importar mais do que os prazos. Nesse campo, a impaciência é inimiga da eficácia.

Há falta de visão estratégica e mesmo tática do que deve ser a política externa do Brasil a caminho da terceira década do século XXI. Como situar-nos no mundo? O que queremos para a América do Sul? Quais serão os principais vetores para o nosso comércio exterior? Como vamos ampliar a capacitação científica e tecnológica que ainda nos falta? Nenhuma resposta para essas questões vitais parece configurar-se no dia a dia da ação diplomática do Brasil na atual gestão.

Essa falta de perspectiva tem gerado a timidez de iniciativas e a gestão meramente burocrática dos assuntos externos. Vamos simplesmente atuando rotineiramente no Mercosul, na Unasul, nos BRICS, na relação com os EUA e os parceiros europeus, no desequilíbrio das trocas comerciais com a China.

À inapetência e à timidez soma-se a leniência, fundada em afinidades político-ideológicas. É o que vimos em casos como os entraves e as restrições que a Argentina impôs aos fluxos de mercadorias, nas ações do governo boliviano contra interesses de empresas brasileiras, nas graves tensões políticas e ameaças aos preceitos democráticos na Venezuela.

Meu partido, o PSDB, em documento do início deste ano que embasará minha administração, já definiu almejar “um país que participe ativamente da comunidade internacional, negociando com todos os continentes”, tendo como ponto de partida interno, “um país justo, inovador, sustentável, produtivo, integrado e moderno”, que valorize “a sua rica diversidade cultural”. As condições internas do país são fundamentais para lhe dar uma política externa efetiva.

A perda da confiança interna no governo atual, que se evidencia todos os dias, tem reflexos também na confiança externa, e isso ajuda fragilizar a posição brasileira no mundo. Eu tenho experiência em gestão e coordenação, como provei com a qualidade de minha administração como presidente da Câmara dos Deputados e como governador de Minas Gerais. Tenho o senso de direção para o Brasil no mundo. Tenho condições de recuperar a confiança dos brasileiros em seu governo e, com isso, assegurar as condições para que o país tenha uma presença mais ativa na gestão da ordem mundial e se beneficie internamente dos resultados positivos que se obtiver dessa sua atuação.

Eduardo Campos: É hora de revalidar a política externa como política de Estado destinada à promoção dos interesses e valores nacionais. Por lidar com aspirações permanentes do país e implicar compromissos de Estado, a política externa não pode ser refém de facções ou agrupamentos políticos. Deve refletir, sempre que possível, convergências sociais e multipartidárias. Surpreende o recurso nos últimos anos a “diplomacias paralelas”. A política externa é aquela definida pelo presidente da República e executada pelos agentes do Estado, sob amparo do texto constitucional. O marco ideológico da política externa são os valores enunciados no artigo 4º da Constituição Federal.

Como ocorreu em momentos decisivos de nossa história, a política externa deve estar a serviço do desenvolvimento do país. Isto passa por uma compreensão acurada e isenta da cena internacional. Já se nota que a crise financeira provocou ajustes importantes na gestão das principais economias, mas não trouxe o anunciado reordenamento do poder econômico. Os EUA dão sinais de reativação de sua capacidade produtiva, com uma reorientação gradual da matriz energética. A China sofre diminuição em sua taxa de crescimento, ainda expressiva, e passa a privilegiar o consumo, no lugar do investimento.

Afastado o risco de colapso de sua franja mediterrânea, a União Europeia vê-se defrontada com o árduo desafio da integração fiscal. O Japão persiste na busca de fórmulas para romper uma década e meia de estagnação, com vultosos pacotes de estímulo à atividade produtiva, à custa de desvalorização do iene. A redução da liquidez internacional afeta os países emergentes com intensidades que variam segundo o contexto doméstico. A Índia e a Turquia são penalizadas por elevados déficits em conta corrente.

Também repercute a deterioração fiscal da economia russa, malgrado suas elevadas reservas. O México aposta em reformas econômicas há muito devidas e na simbiose com a economia norte-americana. Enfim, não se configurou a propalada decadência do Ocidente e uma ascensão definitiva dos países emergentes. A sorte dos emergentes parece depender menos de profecias autorrealizáveis do que de políticas acertadas em produtividade, inovação, participação em cadeias produtivas e acordos seletivos de comércio.

O Brasil não perdeu o bonde da história. Em muitos aspectos, reuniu trunfos para uma inserção positiva na ordem em construção. Conquistou a estabilidade monetária; comprometeu-se com a responsabilidade fiscal; logrou níveis altos de produtividade no campo; reduziu sua vulnerabilidade externa com o acúmulo de reservas; ampliou sobremaneira o mercado interno; adotou padrões normativos de sustentabilidade; universalizou o acesso à escola e deu impulso à pesquisa científica em centros de excelência. Mas é preocupante que se tenha descurado de uma inserção positiva nas relações econômicas internacionais.

Não se justifica a reticência em negociar novas frentes para o comércio de nossos bens e serviços. A valorização das tratativas na Organização Mundial do Comércio é plenamente compatível com a negociação de acordos regionais e bilaterais. Se a adoção de regras universais é crucial para a simetria no comércio entre os povos, é inadiável a necessidade de garantir condições favoráveis de acesso a mercados regionais em um cenário volátil como o atual, onde os principais atores estão empenhados na acomodação recíproca de seus interesses.

Basta lembrar os entendimentos em curso entre os EUA e a União Europeia para a criação da Parceria Transatlântica em Comércio e Investimento, que definirão diretrizes em barreiras não tarifárias e regras de comércio incontornáveis para quem pretenda exportar bens e serviços para dois dos três principais polos da economia internacional. Igualmente sugestivos são os passos adotados para a viabilização de uma zona de livre comércio entre a Ásia e as Américas, com o envolvimento de alguns países latino-americanos, como Chile, Peru, Colômbia e México, os quais, por sua vez, criam e impulsionam a Aliança para o Pacífico, com propósitos ambiciosos em serviços, circulação de capitais e promoção de investimentos.

É importante promover a discussão com o empresariado e a academia sobre como o Brasil deve reagir ao impacto sobre o comércio internacional da formação crescente de cadeias produtivas em escala global, que estão alterando os padrões tradicionais de transação de bens e serviços, sobretudo aqueles de maior valor agregado. O intercâmbio de partes, componentes e serviços ocorre de modo cada vez mais intenso no interior de redes transnacionais de inovação, produção e comercialização.

A regulamentação desse processo tem sido realizada por acordos regionais e bilaterais envolvendo os Estados Unidos, a Europa e alguns países asiáticos e latino-americanos. Comportam regras que costumam ir além do previsto nas normas da OMC sobre propriedade intelectual, garantia de investimento, serviços, movimentos de capital e cooperação aduaneira. Se, por um lado, o reclame por especialização em alguma etapa do processo produtivo pode suscitar reservas em países emergentes com um parque industrial diversificado como Brasil, China, Índia e Rússia, é presente, por outro lado, o risco de marginalização dos fluxos de comércio tecnologicamente mais inovadores da atualidade. É plausível supor que, com a densidade tecnológica de que já dispõe e o grau de internacionalização alcançado por suas empresas, o Brasil possa ajustar-se de forma vantajosa ao novo modelo, valorizando as cadeias de valor sustentáveis e “decabornizantes”.

A América do Sul tem apresentado recentemente uma divisão ideológica e de estratégias nacionais para o comércio internacional como fazia muito tempo não se observava. Como o Brasil deve agir nos próximos anos para lidar com os seus vizinhos, em especial no que se refere às alternativas diversas para o comércio escolhidas pelo Mercosul e pela Aliança do Pacífico?

Aécio: O Brasil tem necessariamente um papel preponderante e fundamental nos processos de integração na América do Sul e em sua interação com outros grandes blocos regionais ou extrarregionais. A construção de um espaço integrado e estável na América do Sul demanda do Brasil um trabalho permanente de diálogo e aproximação, e não de criação de falsos antagonismos. Não estamos numa corrida por modelos excludentes e devemos valorizar as dimensões do Atlântico e do Pacífico de nossa região. O Brasil é ator fundamental nesse processo e a diplomacia brasileira deve construir pontes entre as duas vertentes de nossa região e entre seus diferentes modelos de integração.

Isso requererá, em primeiro lugar, um reexame profundo de nossa política comercial e do Mercosul, que passa por uma crise de identidade. A sua vocação comercial, inibida por crises de países importantes como a Argentina e a Venezuela, foi sendo substituída por uma ênfase em outros setores, o que não é indesejável em si, mas que não convém que se torne prioritária. O bloco tem tido dificuldades em relacionar-se e interagir com outros países ou grupo de países, contrariando o que é hoje uma tendência mundial.

É preciso um reexame urgente do processo de integração, para recalibrá-lo e readaptá-lo. Não se trata de desfigurar o Mercosul, mas de fortalecê-lo para de novo torná-lo apto a engajar-se em negociações efetivas com outros parceiros e prepará-lo para uma maior abertura comercial. E o Brasil deve liderar esse processo, por ter a maior e mais diversificada economia do bloco.

A Aliança do Pacífico é o novo dado na equação integradora da região. Vê-la como agrupamento artificial, como ameaça ou bloco rival seria erro de consequências duradouras para a região como um todo. É preciso avaliar com serenidade as possibilidades de aproximação crescente entre os dois blocos. O Chile, a Colômbia e o Peru são associados ao Mercosul e já é importante o comércio que têm com os demais países do bloco, o que torna natural essa aproximação. E os países do Mercosul poderão beneficiar-se da abertura que os países da Aliança têm para a região Ásia-Pacífico, hoje motor de crescimento da economia mundial. A Aliança do Pacífico e o Mercosul são complementares e os países-membros dos dois blocos podem caminhar para a formação de uma área de livre comércio.

Eduardo: O Mercosul não tem cumprido bem o desígnio original de constituir uma modalidade de “regionalismo aberto”. A expansão significativa do comércio intrarregional não foi acompanhada de empenho negociador do bloco em aumentar suas transações com outras regiões. Salvo um par de acordos de livre comércio com mercados inexpressivos, a tônica foi o imobilismo. As tratativas iniciadas há mais de uma década com vistas a uma associação com a União Europeia permanecem inconclusas. Não se chegou sequer a testar a real disposição da UE em reduzir seu protecionismo agrícola por conta da relutância da Argentina em convergir com os demais membros quanto aos produtos a serem liberalizados e ao período de desgravação. Por pressão da opinião pública e a aproximação das eleições de outubro, o governo brasileiro somente há pouco começou a cobrar com a ênfase devida uma atitude negociadora mais construtiva por parte das autoridades argentinas.

É importante ter presente que a hipótese de uma negociação em “dupla velocidade” não é vedada pelo Tratado de Assunção ou por qualquer dos acordos posteriores firmados entre as Partes. A exigência de uma negociação conjunta consta apenas de uma resolução do Conselho de Ministros das Relações Exteriores, não sujeita à ratificação pelos parlamentos nacionais e, dessa forma, passível de pronta revogação. Como principal economia do bloco, cabe ao Brasil tomar a iniciativa de propor as mudanças de rumo necessárias para que o Mercosul converta-se em fator de desenvolvimento e ator dinâmico do comércio internacional.

Como parte do processo de internacionalização das empresas brasileiras, cujo estímulo pelo Estado deve ser condicionado à obediência de padrões sustentáveis, observou-se nos últimos anos um aumento notável de nossa presença empresarial na América do Sul. Cabe zelar para que a participação de grupos brasileiros na construção da infraestrutura regional em energia, transportes e comunicações ocorra em ambiente de estabilidade de regras e respeito a contratos.

A adesão dos governos sul-americanos ao objetivo da integração física do continente deve ser traduzida em políticas de receptividade e estímulo à cooperação empresarial. Se os ganhos em redução de custos logísticos, reforço da competitividade e formação de cadeias produtivas são comuns, é exigível que se atenda à expectativa por efetiva proteção de investimentos. O governo brasileiro não pode ficar indiferente à sorte das empresas nacionais nos países do entorno, sobretudo quando atuam como parceiras do Estado na consecução de objetivos caros à política externa.

Ainda em relação à América do Sul, como o Brasil deve proceder diante das situações de crise atualmente vividas por Argentina e Venezuela?

Aécio: Um país com fronteira com dez países e com o maior território, população e PIB em sua região deve buscar um entorno politicamente estável, para o que a democracia plena, o desenvolvimento e a harmonia social são fundamentais.

Argentina e Venezuela vivem situações diferentes. No caso da Venezuela, o mais urgente é trabalhar para fortalecer e restaurar os mecanismos democráticos, que estão muito debilitados. Essa é uma tarefa primordial para os próprios venezuelanos, mas uma colaboração externa respeitosa e construtiva, aceita por todos os setores da sociedade venezuelana, pode ajudar consideravelmente. Sobretudo, se for feita com isenção, sem recriminações, aberta ao diálogo com todos, facilitando o diálogo entre todos e promovendo a defesa dos direitos essenciais das pessoas.

Ao Brasil interessa a estabilidade econômica e política de todos os países sul-americanos e vamos continuar a atuar para ampliar as condições que favoreçam esse objetivo. O Brasil deve e está habilitado para ajudar.

A estabilidade institucional e democrática da Venezuela é de nosso interesse, assim como a recuperação de sua economia. No campo econômico vai ser necessário dar maior desenvoltura ao modelo de desenvolvimento do país, assegurando os ganhos sociais, mas liberando as forças produtivas e criativas visando à modernização e à diversificação da economia venezuelana.

Quanto à Argentina, sobressaem as dificuldades econômicas, em etapa que antecede importante transição política. Vou repisar o óbvio. A Argentina é um país de importância singular para o Brasil, parceiro indispensável dos pontos de vista político, econômico-comercial, de vizinhança geográfica, ambiental, humana e social. A sua estabilidade, progresso e bem-estar nos interessam porque também contribuem para os nossos próprios objetivos nesse sentido.

Para cooperar para que a Argentina supere essas adversidades econômicas, temos que encontrar formas de aumentar o nosso comércio bilateral, auxiliar nas tratativas argentinas com organismos ou setores financeiros internacionais, como já fizemos no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, intensificar investimentos de nossas empresas em setores importantes da economia argentina, exigindo que gozem de segurança jurídica e de normas de respeito aos contratos, promover uma maior integração de cadeias produtivas, além do setor automotor.

E é sempre bom lembrar que o êxito do Mercosul se baseará numa relação econômico-comercial sólida e diversificada entre o Brasil e a Argentina.

Eduardo: A América do Sul viveu um processo quase simultâneo de redemocratização a partir dos anos 1980. Não é por acaso que a região acumulou um acervo admirável de compromissos com a democracia como condição para o pertencimento aos esforços regionais de integração. Podem ser enumerados o Protocolo de Ushuaia sobre o Compromisso Democrático no Mercosul (julho de 1998), a Carta Democrática Interamericana (setembro de 2001) e o Protocolo Adicional ao Tratado Constitutivo da Unasul (novembro de 2010).

Mas é preciso estar atento para que, salvaguardado o respeito ao princípio da não intervenção nos assuntos internos de outros Estados soberanos, nosso país não acabe por endossar sinais de fenômenos que podem destoar dessa tendência. Fenômenos relacionados à ressurgência de um certo populismo tem sido identificados por analistas dos mais diversos matizes, em graus diferenciados e com causas específicas, em alguns países, como a Argentina, a Bolívia, o Equador e a Venezuela.

Alguns desdobramentos desses fenômenos nem sempre têm dado mostras de assegurar o pluralismo, a alternância no poder, a independência e equilíbrio dos poderes e as liberdades públicas fundamentais, como o direito de manifestação e a liberdade de imprensa, valores caros aos compromissos democráticos que inspiram os esforços de integração da região.

É questionável se o governo brasileiro tem atuado com discernimento e responsabilidade histórica diante da saga venezuelana. Há dúvidas sobre método e conteúdo. Pelo menos três vias têm sido exploradas para o diálogo regular com as autoridades da Venezuela: o Itamaraty, a Assessoria Especial da Presidência da República e os canais partidários. Além do descrédito doméstico e internacional que essa tríplice interlocução traz para o Ministério das Relações Exteriores, com responsabilidade normativa pela execução da política externa, fica a incerteza se é de Estado ou partidária a política do Brasil para a Venezuela, que assume posições em disputas eleitorais, arrisca suscitar ressentimentos na sociedade venezuelana e cria fissuras em uma relação que, forçosamente, sobreviverá às agruras do presente.

Já o equívoco de conteúdo tem a ver com a falta de sintonia entre posições e princípios. Cometem-se gestos de indisfarçável condescendência com o déficit democrático na Venezuela, que contrariam o compromisso do Estado brasileiro com a cláusula democrática e a integração regional. O país vê-se debilitado em sua autoridade para construir pontes em um continente crescentemente fracionado por modelos antagônicos de desenvolvimento. Parece-me positiva a mobilização da diplomacia brasileira para que a Unasul modere o diálogo em Caracas entre governo e oposição. Isto pode atenuar o mal-estar causado por comunicados intempestivos e nem sempre equilibrados sobre a situação venezuelana adotados por aquele foro e pelo Mercosul.

Finalmente em relação ao subcontinente, como é possível (se considera desejável) promover a sua integração?

Aécio: A integração regional é não só desejável, mas essencial como instrumento de desenvolvimento com democracia. O Brasil só terá a ganhar com a prosperidade de seus vizinhos. Não há ilhas de prosperidade em um mundo crescentemente interligado. Além disso, a multipolaridade será construída a partir de bases regionais sólidas. O regionalismo, com suas cadeias produtivas integradas, com uma moderna infraestrutura interligando os países, com instituições e regras voltadas para a preservação da paz e a solução dos conflitos e para o aprimoramento das instituições democráticas, com esquemas de cooperação em matéria de segurança, é um dos elementos centrais do mundo multipolar.

Mas um processo de integração dessa natureza requer seriedade, regras claras a serem respeitadas por todos, instituições comunitárias sólidas. Um regionalismo de integração aprofundada, baseado em concepções compartilhadas sobre como alcançar objetivos comuns e em consonância com a realidade de nossa região e seus desafios não se constrói apenas com discurso político. Na perspectiva do Brasil, isso requer uma vocação permanente para negociação e compromisso e uma aptidão para assumir responsabilidades.

A construção de um mercado comum regional não se fará com exceções e desrespeito às regras. Nós e nossos parceiros temos que sentar-nos à mesa e encarar a realidade atual do Mercosul e decidir refunda-lo em bases sólidas e por todos respeitadas. Temos que acordar um claro caminho para a construção de um mercado comum que constitua uma sólida base para a negociação com nossos vizinhos.

Por iniciativa do presidente Fernando Henrique Cardoso, realizou-se em Brasília no ano de 2000, a Primeira Cúpula da América do Sul. Dali, surgiu um projeto importante para a região, que merece ser revitalizado, a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), que, ao propugnar a integração física do subcontinente, representa a contrapartida necessária à expansão dos mecanismos de comércio para o adensamento da competitividade da região. O objetivo dessa maior integração deve ser o de uma região mais aberta para o mundo e para as possibilidades de interação com outros grandes grupos regionais.

Eduardo: A integração do nosso subcontinente atende a razões históricas, geográficas, culturais, políticas e econômicas. Teremos sempre uma identidade sul-americana, reconhecimento que motivou o Brasil a promover a Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA), no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, e a formalizar e desenvolver a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), na gestão do presidente Lula. É importante que se dê continuidade ao esforço de integração continental em energia, comunicações, e transportes, assegurando, de maneira definitiva, o acesso aos portos do Pacífico.

A região continua sendo destino privilegiado de nossas exportações, inclusive as de maior valor agregado. Muito ajudaria, estou certo, articular a associação do Mercosul com a Aliança do Pacífico, inclusive para a captação recíproca de investimentos e a incorporação de empresas brasileiras nas cadeias internacionais de valor. Quanto mais integrada a região, maiores os atrativos que reunirá para a celebração de acordos bilaterais e multilaterais com outros polos importantes da economia global.

Tome-se o exemplo do largo potencial para o adensamento da nossa relação estratégica com a União Europeia. Um passo emblemático pode ser a resolução das pendências para a formalização do acordo de associação entre o Mercosul e a UE, inclusive com a admissão da possibilidade de “dupla velocidade” para países.

Qual a sua visão sobre as relações do Brasil com os EUA? Como é possível superar o incidente provocado pelas ações da NSA? É desejável expandir o comércio bilateral? Caso sim, de que maneira?

Aécio: Os EUA são um parceiro indispensável, com quem temos que construir relações maduras e positivas, baseadas no respeito mútuo e no reconhecimento dos interesses nacionais de cada um. Como superpotência remanescente e herdeiros de um mundo unipolar, os EUA têm uma capacidade de atuação à escala global e uma grande dificuldade em reconhecer os limites ao exercício do poder. Além disso, Os EUA são um dos poucos países que contribuem para a inserção do Brasil na cadeia de valor, mesmo que de maneira reduzida.

A unipolaridade declinante em que vivemos é um período complexo e instável, durante o qual os EUA terão que gradualmente ir abandonando o exercício do poder hegemônico e aceitando os limites a seu poder econômico e militar. De sua parte, os demais países com capacidade de fazê-lo devem assumir novas responsabilidades e colaborar para a superação dos focos de tensão e dos grandes problemas globais, como a mudança climática, a eliminação da pobreza e o terrorismo.

O Brasil, como principal país da América do Sul e do Atlântico Sul, áreas livres de tensão e fora dos perímetros centrais de segurança que preocupam os EUA, deve buscar com os EUA uma parceria estratégica centrada na construção de um espaço de paz, segurança e desenvolvimento em nossa região, como elemento de estabilidade em um mundo multipolar. Como a América do Sul não é uma área onde os EUA tenham interesses estratégicos importantes, nem é uma região que ameace a segurança norte-americana, e como não há competidores em busca da hegemonia no subcontinente, os EUA podem encarar a América do Sul e o Atlântico Sul como parceiros no desenvolvimento de uma forma diferente de relacionamento.

Com os EUA, temos que desenvolver uma relação adulta e sem complexos: respeito e compreensão dos interesses de cada um, diálogo entre iguais, franqueza e aceitação serena das eventuais divergências, ênfase no que pode nos aproximar são as balizas para um relacionamento produtivo, autonomia nas decisões e conformidade com os princípios que devem reger a nossa atuação diplomática, sem adesões automáticas, mas também sem confrontações desnecessárias ou irrefletidas. Há um enorme potencial que deve ser aproveitado e que não pode ser ignorado por preconceitos ou por desconfiança.

É não só possível, mas desejável acordar uma agenda positiva. Negociar com uma superpotência nunca é fácil, mas não temos com os EUA conflitos estratégicos e podemos trabalhar numa acomodação de interesses que não apenas respeite nossos objetivos, mas contribua para nosso desenvolvimento. Nossa relação hoje está muito aquém de suas potencialidades, e a retomada do crescimento nos EUA, que dá sinais de estar se consolidando, criará novas oportunidades. Somos dois dos maiores países e maiores economias nas Américas. Nossas transações comerciais podem facilmente chegar aos US$ 100 bilhões de dólares anuais, se mobilizarmos governo e empresariado na identificação de novas oportunidades de negócios, investimentos recíprocos, remoção de entraves. É significativo o fato de que os EUA são um dos maiores destinos para nossas exportações de valor agregado.

As oportunidades na área comercial não se esgotam no plano bilateral. Um dos desafios das próximas décadas será expandir a oferta mundial de alimentos. Brasil e EUA têm duas das maiores e mais competitivas agriculturas do mundo e, junto com outros grandes produtores, têm muito a ganhar com uma maior cooperação. No plano multilateral, devemos dialogar para a retomada da Rodada de Doha e para o fortalecimento das disciplinas na área de subsídios. Nesse contexto, temos que acompanhar a implementação da nova lei agrícola norte-americana e preservar nossos interesses em especial em soja, algodão e milho produtos, que podem ter seus preços deprimidos pelos subsídios norte-americanos.

Há muito a fazer ainda em matéria de cooperação em campos como inovação, educação, governança cibernética, ciência e pesquisa, tecnologia da informação, mudança climática. Temos hoje milhares de estudantes em universidades norte-americanas e devemos explorar esse capital para desenvolvermos esquemas de cooperação com nossas instituições de ensino superior.

O incidente provocado pelas ações da NSA – que são inaceitáveis, dada a natureza da relação entre o Brasil e os EUA – produziu um justificável mal-estar em nosso país. É prudente e indispensável que o governo norte-americano tome a iniciativa de adotar as medidas para superá-lo, porque é de nosso interesse comum não ficarmos reféns desse episódio. De nossa parte, devemos zelar para que as normas básicas de convívio internacional sejam respeitadas, rejeitando ingerências absurdas e formas insidiosas de manipulação da informação. A tecnologia abre as portas para o bem e para o mal, mas o desenvolvimento tecnológico não pode ser desculpa para formas aberrantes de ingerência e controle que violam direitos básicos de governantes e cidadãos.

Eduardo: As relações com os EUA carecem de atualização. Subestimamos a capacidade da economia norte-americana de inovar e reinventar-se, o que talvez explique a queda de nossa participação relativa naquele mercado, que tem sido, ao lado da América Latina, um dos principais destinos das manufaturas brasileiras. O desafio de reverter essa tendência cresce em importância com a reativação em curso do consumo e da produção nos EUA. Além de uma política comercial agressiva, de resto desejável para outras frentes regionais, é chegado o momento de uma clara determinação em desenvolver um diálogo maduro, equilibrado e propositivo com Washington, que não dramatize diferenças naturais entre parceiros com interesses econômicos e políticos reconhecidamente amplos. São inúmeros os campos que podem compor uma agenda positiva entre o Brasil e os EUA, que vão de um renovado estímulo à cooperação empresarial nas múltiplas áreas de complementaridade industrial ao reforço do intercâmbio tecnológico e educacional.

Que expectativas têm em relação ao futuro do comércio global sob a égide da OMC, agora sob o comando de um brasileiro?

Aécio: O crescimento do comércio global reduziu-se substancialmente depois da crise global de 2008. Nos últimos anos, o crescimento foi de apenas 2,5% e em 2014 não será diferente. A OMC vive um momento difícil e não é exceção na crise do multilateralismo que afeta as instituições econômico-financeiras e a que deveria velar pela paz e segurança.

O comércio global está cada vez menos sob a égide da OMC, e isso se deve tanto à proliferação de acordos de livre comércio como à própria evolução do comércio e da produção, primeiro com o comércio intrafirmas e agora com a consolidação de cadeias globais de valor. A nova geração de mega-acordos em negociação com o TPP e o TTIP envolve parte substancial do comércio mundial e coloca na mesa de negociação temas que vão muito além das disciplinas da OMC, como questões trabalhistas, ambientais, cambiais, transmissão de dados e comércio eletrônico, investimento e competição.

Além disso, tais acordos, que partem de uma visão geoestratégica a começar com o pivô dos EUA para a Ásia e a ascensão chinesa, procuram criar universos de regulação que se transformem em padrões mundiais. São acordos que têm a ambição de legislar para o futuro e mudar completamente a agenda do sistema multilateral de comércio. Ignorar tais desenvolvimentos ou jogar no fracasso dessas iniciativas, por mais problemáticas que elas sejam, não é a melhor estratégia para um país que sempre apostou na OMC e no sistema multilateral de comércio.

O acordo de Bali, que deve muito à atuação do diretor-geral Roberto Azevêdo, pareceu criar esperanças de que a agenda se desbloquearia, mas as dificuldades ainda presentes na situação da economia e do comércio mundiais dificultam avanços. Na área de maior interesse ofensivo para o Brasil, a dos subsídios agrícolas, a nova lei agrícola dos EUA e a nova política agrícola comum da Europa dificultam a negociação de novas disciplinas.

Não obstante esses problemas, o Brasil (que hoje tem um peso específico muito maior na OMC fruto de sua atuação na Rodada de Doha e de sua liderança no G20) deve perseguir um duplo caminho: concluir a Rodada de Doha, negociando um acordo possível nos temas centrais, agricultura e produtos industriais, e explorar novos caminhos para o sistema multilateral de comércio e para a OMC, que leve a uma OMC2, com uma nova agenda, com métodos de trabalho mais modernos e com um correspondente sistema de solução de controvérsias. Temos que desenvolver uma plataforma brasileira para a conclusão da Rodada e para a reforma da OMC e com base nela promover o diálogo e a concertação com nossos parceiros a começar pelo G20 e os BRICS.

Em poucas palavras: é preciso definir uma nova estratégia de negociação, que, sem desconsiderar a importância da OMC, seja também ativa na sua dimensão bilateral e regional.

Eduardo: Não há razão para minimizar a importância do acordo alcançado pela Organização Mundial do Comércio em Bali para a facilitação do comércio internacional. Além de prescrever a adoção de medidas que permitirão uma poupança significativa de recursos, inclusive aos países em desenvolvimento, o entendimento em Bali atestou a competência negociadora do embaixador Roberto Azevêdo em articular um consenso que garantiu a sobrevivência da organização e, com ela, o ideal de uma regulação simétrica e universal do comércio mundial. O Brasil deve continuar empenhado em obter uma resolução positiva dos demais itens do chamado pacote de Bali, em particular da questão agrícola. Nossos trunfos a este respeito são sobejamente conhecidos, a começar pelos padrões elevados de produtividades assegurados pelo trabalho da Embrapa e a determinação do nosso agronegócio.

Como já afirmado, o compromisso com o êxito das tratativas na OMC é plenamente compatível com a preocupação em promover a integração da América do Sul, negociar acesso a mercados regionais e assegurar uma incorporação vantajosa das empresas brasileiras nas cadeias globais de produção.

Apesar da alta prioridade que se deu à obtenção para o Brasil de um assento como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, ela parece atualmente mais distante do que nunca. Que prioridade terá em seu governo esse objetivo?

Aécio: O Brasil é hoje reconhecido em todo o mundo como um candidato natural a um assento permanente numa reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Isso se deve à atuação de nossa diplomacia, ao prestígio que angariamos pela nossa vocação pacífica e em favor do desenvolvimento e da construção de instituições e regras multilaterais que reflitam os interesses de todos os países. Não temos por que abdicar desse capital e do reconhecimento amplamente majoritário de nossas qualificações para ser membro permanente do Conselho de Segurança.

A reforma do Conselho é reconhecida por ampla maioria dos membros das Nações Unidas como necessária e importante, e como um meio para recuperar o prestígio e a capacidade de atuação da ONU, em especial na garantia da paz e da segurança num mundo pós-Guerra Fria.

Ao mesmo tempo, devemos admitir que não temos como forçar uma reforma do CS, nem fazê-la da forma que consideramos mais correta. Esse é um tema que pelo conjunto de interesses que desperta levará seu tempo.

O Brasil tem dado excelentes exemplos de que reúne todas as condições para ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança, por meio de suas seguidas participações em missões de estabilização e paz, e muito notadamente no Haiti, aonde as nossas Forças Armadas vêm demonstrando uma capacidade de atuação de que podemos nos orgulhar. Além da contribuição para a restauração da segurança no país, as tropas brasileiras têm atuado na área da reconstrução da infraestrutura, com resultados reconhecidos e apreciados pela população haitiana. A participação nessa missão tem, também, aperfeiçoado a capacitação do Brasil para colaborar mais eficientemente em outras operações da ONU na manutenção da paz em regiões conturbadas. Dada a nossa projeção no mundo, seremos mais e mais chamados a contribuir para esse tipo de missão e acho que devemos atender.

Eduardo: Somos a sétima maior economia, a quinta maior população e o quinto maior território do planeta. Temos instituições democráticas estáveis e consolidadas. Nossa tradição diplomática pacifista e multilateral é muito respeitada no contexto das nações. Não temos pendências ou conflitos de relevo com qualquer outro país.

Estamos cada vez mais comprometidos com a cooperação internacional a favor do desenvolvimento sustentável e da eliminação da pobreza. Gozamos de relações muito positivas com as nações emergentes, muito por conta do empenho do presidente Lula em fortalecer as relações Sul-Sul.

Estas e outras credenciais explicam as expressivas vitórias obtidas pela diplomacia brasileira nas eleições para as Direções Gerais da FAO e da OMC. Mas do que isto: são fatores que reclamam o reforço do pleito pela atualização dos mecanismos de governança global, tanto na esfera econômica como no âmbito político.

É mais do que justo que o peso do voto do país nas deliberações do Fundo Monetário Internacional seja elevado a um patamar que efetivamente corresponda à dimensão de nossa economia. Também cabe insistir na reivindicação de que as chefias do FMI e do Banco Mundial deixem de ser monopólios de europeus e norte-americanos.

O pleito pela reforma na composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas mantém sua atualidade, inclusive a fórmula de articulação conjunta (G4) com outras potências regionais. Sem uma representatividade adequada, o CS não pode desincumbir-se com a eficácia desejável de suas elevadas atribuições nos campos da paz e da segurança.

O Brasil tem sido acusado por entidades de defesa de direitos humanos de proceder com frequência de maneira dúbia ou fraca em situações como as crises da Síria e da Venezuela. Quais as diretrizes de seu governo nesse campo?

Aécio: A prevalência dos direitos humanos é um dos princípios que obrigatoriamente devem informar a política externa brasileira (artigo 4º II da Constituição Federal). Será uma diretriz fundamental em meu governo, pois reflete a nossa visão de um país de rica diversidade cultural empenhado na tolerância pluralista e na sustentabilidade.

Os princípios de não intervenção em assuntos internos e soberania serão respeitados. Não podemos, entretanto, ficar indiferentes diante de situações em que claramente são violados os direitos das pessoas, seja em momentos de grave conturbação interna, seja no contexto de conflitos regionais ou internacionais mais amplos.

Nossa diplomacia será orientada, em meu governo, a deixar clara da maneira mais apropriada nos foros internacionais e junto às forças envolvidas nossa adesão à defesa dos direitos humanos e nossa inconformidade com a sua violação pontual ou sistemática. O importante será avaliarmos lucidamente as situações e verificar qual pode ser o melhor meio de influir construtiva e eficazmente. E eu não hesitarei, se considerar necessário, em fazer chegar eu mesmo a nossa posição a eventuais interlocutores.
Recentemente, o governo Dilma Rousseff deu um péssimo exemplo de como não se comportar em situações concretas de direitos humanos, no caso o direito a asilo político, na situação que criou com o senador boliviano Pinto Molina.

Foi uma atuação que não honrou as melhores tradições de nossa diplomacia. Houve erros e má condução do caso dos dois lados. Num contexto de relações próximas e importantes como se dá entre Brasil e Bolívia, o governo do presidente Evo Morales deveria ter respeitado a decisão brasileira de conceder o asilo e não poderia ter-se negado a dar o salvo-conduto para que o senador deixasse o país. Há toda uma prática latino-americana estabelecida nesse sentido por acordos e ações.

Da parte do Brasil, houve uma inexplicável passividade ante a atitude boliviana e uma condução nebulosa das tratativas, sem que a opinião pública fosse devidamente informada e esclarecida. Por que manter por tanto tempo o senador Pinto Molina alojado em condições inóspitas nos escritórios da Embaixada, sem poder nem tomar banho de sol nem receber visitas além das do seu advogado? Por que ele não foi transferido para a residência do embaixador? Por que o Brasil não agiu com firmeza e determinação para fazer com que a Bolívia lhe desse o salvo-conduto?

Será lamentável se, no final, o diplomata Eduardo Saboia vier a pagar a conta de tantos equívocos.

Eduardo: Não devemos oferecer motivos para que paire qualquer dúvida sobre os valores e princípios que desejamos ver prosperar na convivência internacional, que são aqueles que nortearam a modernização do país e encontram o mais pleno amparo no texto constitucional: defesa da paz, resolução pacífica de controvérsias, valorização da democracia, respeito aos direitos humanos e promoção do desenvolvimento sustentável. A elevação do nosso status no sistema das Nações Unidas e no multilateralismo como um todo somente faz sentido se for para honrar o que somos, evitando omissão ou ambiguidade diante do uso da força, do arbítrio, da violação dos direitos e garantias fundamentais, da pobreza e da destruição da natureza. Em torno daqueles valores, que são universais, justifica-se que alarguemos nossos horizontes, contribuindo, como é tradição de nossa diplomacia, para a formação de consensos, sem vícios ideológicos ou confrontações estéreis.

Estas preocupações devem orientar o posicionamento do Brasil diante do que ocorre na Crimeia, na Síria e nos diferentes casos e temas submetidos à atenção do Conselho de Segurança, do Conselho de Direitos Humanos e dos foros sociais e ambientais das Nações Unidas. São princípios igualmente relevantes para as relações com nossos vizinhos, até porque refletem uma experiência de amadurecimento democrático pela qual também passou a maior parte dos países latino-americanos.

Em prazos quase concomitantes, soubemos superar regimes de exceção, validar o Estado de Direito, promover a inclusão social no marco da democracia, ampliar o exercício da cidadania e ser um dos principais polos das redes virtuais e horizontais que estão renovando a participação-cidadã, configurando uma sociedade civil global e abrindo espaço para a emergência do que Marina Silva chama de “ativismo autoral”.

Qual a sua opinião sobre a tese da “responsabilidade ao proteger” lançada pelo Brasil na ONU com boa reação internacional de início, mas que depois não prosperou?

Aécio: O conceito de “responsabilidade ao proteger” é a meu ver uma boa contribuição do Brasil à discussão sobre como deve reagir a comunidade internacional frente a situações em que se verifica grave crise humanitária em razão de conflitos. É uma lástima que, depois de ter anunciado o conceito na Assembleia Geral da ONU, a presidente Dilma Rousseff tenha aparentemente se esquecido dele e tenha deixado de promovê-lo, em mais uma demonstração de seu desinteresse pelos grandes temas de relações internacionais, que às vezes chega a ser quase irresponsável.

As populações podem ser vítimas de crimes de diferentes naturezas e a questão é saber como e com que autoridade intervir sem causar danos maiores dos que já estão ocorrendo. Preferivelmente os meios iniciais devem ser os pacíficos. A opção militar, se adotada, deverá cercar-se de todos os cuidados para afetar minimamente a população civil e o recurso à força deve ser a última opção, e sempre com respaldo das Nações Unidas e de organismos multilaterais. Critérios preliminares precisam ser acordados multilateralmente nos foros competentes.

Cabe relançar a discussão sobre esse tema nos âmbitos interno e externo. Internamente, envolver além dos órgãos governamentais, o Congresso, a área jurídica e setores da academia e da sociedade civil para plasmar uma consistente e sólida posição em termos jurídicos. Depois, levá-la ao debate político com outros países interessados e na ONU.

Eduardo: Parece-me uma tese legítima, orientada como é pelo interesse em preservar as populações civis dos elevados custos de intervenções armadas. Creio ser uma iniciativa condizente com nosso apego à paz e que merece ser amadurecida, ao lado da tese da “responsabilidade de proteger”, conceito igualmente legítimo no esforço de proteger os civis de crimes hediondos como o genocídio e a limpeza étnica.

A China deverá se tornar proximamente a maior economia nacional do mundo. Quais são as suas prioridades para a relação bilateral com esse país, do qual a vitalidade das exportações brasileiras tem se tornado quase dependente?

Aécio: Num primeiro momento, é preciso estabilizar a relação, intensificando o diálogo na busca de soluções negociadas para os problemas que dificultam a construção de uma verdadeira parceria estratégica. Tais problemas aparecem, sobretudo, na área econômica e vêm sendo atacados por medidas pontuais, defensivas e unilaterais. Esse enfoque, que não resolve as questões, deveria ser substituído por uma estratégia mais abrangente, que permitisse colocar as pendências atuais num contexto mais amplo. Em vez de concentrar a estratégia brasileira exclusivamente em medidas defensivas, esse novo enfoque permitiria combinar aspectos defensivos e ofensivos e montar uma agenda negociadora com a China como forma de avançar os interesses brasileiros.

Para que uma estratégia dessa natureza prospere, é fundamental dar à relação com a China uma verdadeira visão de conjunto que integre as visões setoriais e permita identificar as vinculações e as trocas. Isso só será possível por meio de um efetivo exercício de coordenação, envolvendo não só o governo, mas o empresariado e os meios acadêmicos. Essa articulação faz-se absolutamente necessária no caso da China, dadas as dimensões do país e seu sistema político e econômico sui generis: o socialismo com características chinesas. A China é uma sociedade com cultura e organizações socioeconômicas diferentes e deve ser vista como tal, não para hostilizá-la, mas para melhor compreendê-la e com ela nos relacionarmos adequadamente. Tal relacionamento requer que os problemas sejam vistos em conjunto com a percepção dos linkages e trade-offs possíveis.

Ao procurar avançar na mesa de negociações, o Brasil deve ir redefinindo sua relação com a China dando-lhe novos contornos que, sem deixar de explorar as complementaridades básicas entre as duas economias, possam ir além desenvolvendo novas sinergias e complementaridades.

O Brasil seguirá sendo um importante fornecedor de matérias-primas e produtos agrícolas para a China, cuja demanda por tais produtos continuará crescendo. A China seguirá exportando produtos manufaturados para o Brasil, cada vez mais sofisticados e com maior valor agregado. Essa complementaridade é importante, pois cria a base para um crescimento continuado dos fluxos de comércio e investimento, tornando a relação bilateral cada vez mais importante para os dois lados.

O que falta é ir além dessa complementaridade em três sentidos: mudando a natureza da relação comercial através da diversificação das exportações brasileiras e da redução das exportações chinesas de bens de consumo baratos; criando novas parcerias através de investimentos recíprocos que permitam gerar novas correntes de comércio; desenvolvendo complementaridades em novas áreas como infraestrutura, ciência e tecnologia e educação e cultura.

Esse exercício contribuirá para reduzir a dimensão dos problemas e atritos ao tornar a agenda bilateral mais abrangente, o que facilitará a resolução de problemas pontuais colocando-os na moldura mais ampla da redefinição da parceria estratégica.

Brasil e China, como dois gigantes em desenvolvimento, enfrentam muitos desafios comuns, e suas políticas públicas refletem uma grande coincidência apesar das diferenças de regime. Essas coincidências abrem espaço para uma agenda renovada de diálogo e cooperação. As diferenças tornam o diálogo mais interessante e a não ser em poucas questões não são de ordem a impedir a cooperação.

As transformações em curso no mundo, com o aumento do peso relativo dos países em desenvolvimento e com sinais de uma repartição mais equitativa do poder e de um mundo multipolar, dão à parceria entre o Brasil e a China uma dimensão que ultrapassa o plano bilateral. Atuando em conjunto com outros países emergentes, Brasil e China podem ajudar a desenhar uma nova ordem internacional para cuja construção será necessário dar ao multilateralismo do pós-guerra uma nova configuração.

Aos dois países interessa um mundo estável e harmonioso, livre de hegemonias. O aumento da multipolaridade por si só não levará a um mundo dessa natureza. Será, portanto, necessário desenvolver um esforço de formulação que procure criar as bases para uma ordem multipolar. Brasil e China, como dois grandes países em desenvolvimento e potências regionais, no Leste e no Oeste, têm uma responsabilidade especial nesse contexto. O diálogo político entre os dois terá que ser redefinido para incorporar essa visão estratégica de longo prazo.

Eduardo: A relação com a China exige atenção prioritária pela magnitude das cifras e pelos desafios. Em um par de anos o país tornou-se nosso primeiro parceiro comercial, com elevado superávit do lado brasileiro, bem como uma importante fonte de investimentos. É improvável que essa relação diferenciada seja alterada com a diminuição no ritmo de crescimento chinês. Se confirmado que a taxa de expansão anual do produto interno bruto da China no período 2014-2016 ficará em torno de 7%, isso significa um incremento por ano de 1,3 trilhão de dólares, quase o dobro do que se observava há dez anos, quando o crescimento era superior a 11%. A elevação da base de cálculos propicia uma geração adicional de riqueza a cada ano em volume suficiente para assegurar uma considerável demanda por insumos externos, mesmo com o esperado aumento do consumo doméstico.

Por tranquilizador que seja esse cenário para as contas nacionais brasileiras, ele não implica, de todo modo, uma melhora na composição da pauta bilateral e tampouco a eliminação da concorrência desleal representada pelas exportações chinesas de baixo custo. É verdade que já se configuram tendências como a substituição das indústrias de baixo custo por indústrias intensivas em conhecimento e a valorização gradual do yuan, que podem eventualmente dispensar as práticas desleais de comércio. De qualquer maneira, parece mais do que recomendável, até pelo ritmo lento dessas mudanças, que se desenvolva um diálogo franco com as autoridades chinesas sobre as dificuldades impostas pelo câmbio e pelas exportações a custo irrisório. Também convém empenhar-se para que os investimentos chineses atendam às nossas expectativas por estabelecimento de parcerias, utilização de insumos locais, criação da capacidade de pesquisa e desenvolvimento e contratação de mão de obra e de executivos brasileiros.

Qual a sua opinião sobre a importância do grupo BRICS para o Brasil e que relevância ele terá em seu governo?

Aécio: O conceito do economista Jim O’Neill foi bastante original ao buscar pontos de convergência ou similaridade entre os quatro países que conformaram o grupo BRICS em seu início e ao sublinhar a sua importância e o seu potencial no crescimento da economia global. Considerados em suas individualidades, Rússia, Índia, China e África do Sul são países com os quais o Brasil já tem um relacionamento substantivo, intenso e diversificado. Somados reúnem cerca de 40% da população mundial e são responsáveis por ao redor de 20% do PIB mundial. Os BRICS são um grupo de crescente relevância e uma plataforma para a projeção do Brasil.

O grupo enfrenta, contudo, desafios importantes e ainda não se consolidou como interlocutor de peso no equacionamento de temas relevantes da agenda internacional. O exercício de coordenação entre seus membros é ainda incipiente e isso se deve não só às diferenças entre eles, mas ao fato de que não há um consenso entre seus membros sobre a necessidade de assumir maiores responsabilidades como decorrência de seu crescente peso econômico e influência política. Nesse sentido, os BRICS ainda não evoluíram para definir claramente seu perfil e para projetar uma visão de como desejariam ver reformulada a presente ordem internacional.

O grupo tem três pilares: diálogo, coordenação e cooperação. Pelo diálogo, o grupo deveria aumentar sua confiança mútua e ir desenvolvendo uma visão comum da situação internacional, sem negar as diferenças entre seus membros. Na coordenação, o grupo deveria enfatizar as áreas de maior coincidência econômica, começar a desenvolver propostas mais concretas como, por exemplo, em matéria dos temas do G20. Exemplo positivo foi a recente proposta de criação de um banco formado pelos BRICS. A influência do grupo dependerá, contudo, de sua capacidade de coordenar-se melhor também em temas políticos onde as divergências entre seus membros são mais importantes (sistemas políticos, visão estratégica, relações entre Oriente e Ocidente). A cooperação deveria ser orientada pela concentração em poucas áreas e efetiva implementação. Poderia também abrir espaço para exercícios de aproximação com outros países, sobretudo em desenvolvimento. Esse exercício de “alargamento” teria um duplo objetivo: evitar a caracterização do grupo como elitista ou fechado e diluir percepções do grupo como confrontacionista e obstrucionista.

Ao Brasil interessa atuar no seio dos BRICS para a consolidação do grupo e para que ele se converta em uma plataforma para a formulação de propostas sobre um novo ordenamento multipolar e uma reforma do multilateralismo. Essas propostas deverão surgir do fortalecimento do diálogo e da sua capacidade de chegar a posições comuns sobre temas da agenda internacional, inclusive no plano político. Esse exercício deverá consolidar-se gradualmente e reconhecer os diferentes interesses dos membros. Ao mesmo tempo interessa ao Brasil aprofundar a cooperação entre os cinco países em áreas como agricultura, energia e ciência e tecnologia.
É por essas razões, por ser um espaço de diálogo – somado a outros que já integramos – que em meu governo o Brasil continuará a participar dos BRICS de maneira construtiva.

Eduardo: Trata-se de um conceito sem capacidade para pautar a política externa brasileira, mas com algum valor instrumental. Reúne países muito heterogêneos entre si, com escassa ou nenhuma coincidência em termos de valores, como democracia, direitos humanos e desenvolvimento sustentável, em relação aos quais temos bem mais afinidade com os EUA e a Europa. Daí a importância de evitar que a participação no grupo nos iniba de assumir as posições mais condizentes com as nossas tradições e princípios, como suspeito tenha ocorrido no tratamento da crise na Ucrânia. De todo modo, o foro pode ser útil para avançar reformas nos padrões de governança econômica global, como ocorreu na expansão dos recursos para empréstimos do Fundo Monetário Internacional.

Qual a sua opinião sobre o projetado Conselho Nacional de Política Externa que alguns pretendem criar?

Aécio: A sociedade civil no Brasil tem exigido legitimamente a ampliação de espaços de participação na formulação e na execução de políticas públicas que afetam o seu quotidiano, o que lhe é garantido em nossa Constituição. A questão que se põe está em como fazer isso sem ignorar as instâncias institucionais e políticas que também representam e interpretam a vontade popular. E sem desconhecer que já existem órgãos e mecanismos participativos em diferentes campos.

No caso da política exterior, as Comissões de Relações Exteriores do Senado e da Câmara Federal têm promovido frequentemente o debate sobre assuntos externos, como lhes compete. O Itamaraty, já no início dos anos 1990, abriu-se ao diálogo com diferentes setores sociais, promovendo seminários, mesas-redondas, audiências públicas sobre temas como meio ambiente, direitos humanos e negociações comerciais. Esses diálogos, conduzidos pelo Legislativo e pelo Executivo, foram inclusivos, tendo deles participado representantes dos setores acadêmico, sindical, empresarial, de organizações sociais não governamentais, vindos de diferentes vertentes políticas e de pensamento.

É saudável esse intercâmbio porque a política externa deixou há tempos de ser preocupação restrita a seus executores ou a setores especializados. A vida internacional se normatiza de maneira crescente e sua internalização tem impacto em muitos setores da vida nacional. A coordenação de esforços na formulação de política externa é sempre louvável, mas depende de capacidade de gestão, como se demonstrou durante o governo Fernando Henrique Cardoso, quando a Camex foi fundamental para a política comercial brasileira. Infelizmente, ela foi abandonada desde que as administrações petistas passaram a exercer o poder.

A propósito de um eventual Conselho Nacional de Política Externa, cabe lembrar que há uma enorme diferença entre ouvir os mais amplos setores da sociedade para coordenar esforços e o risco de deixar que as políticas de Estado sejam instrumentalizadas por grupos político-ideológicos, partidos políticos e movimentos afinados com quaisquer governos. A política externa é uma política pública de Estado, e todo mecanismo voltado para o seu aperfeiçoamento deve ser concebido em termos republicanos, que não é o que me parece estar nas propostas ora mencionadas para a criação de um Conselho Nacional de Política Externa.

Eduardo: A proposta de criação de um conselho externo tem a ver com o papel do Itamaraty. O Ministério das Relações Exteriores poderia ter sido mais valorizado nos últimos anos. Poderia ter sido fortalecido em diálogo com outros órgãos do Estado brasileiro e instâncias da sociedade civil. A instituição foi esvaziada com a partidarização ou ideologização da política externa.

Para colocar outras vozes no debate sobre os rumos de nossa ação externa, não me parece necessário criar um conselho com atribuições paralelas. Basta aumentar a porosidade do Itamaraty aos influxos externos, seja do Estado, seja da sociedade, o que começa a ser feito pela gestão atual da Casa de Rio Branco.

Transferir competências em política externa a um novo foro seria depor contra uma instituição e quadros de reconhecida capacitação e que têm prestado uma inestimável contribuição à construção e à projeção internacional do Brasil.

Julho de 2014

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