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Relações Internacionais e basquetebol e algumas boas histórias

basquetemundo Um amputado sobrevivente do Câncer, adolescentes iraquianas, um vilarejo isolado nos rincões da Ásia e crianças de uma periferia urbana violenta não poderia ser um grupo mais heterogêneo, mas o esporte nos lembra que vencer dificuldades e buscar opções de lazer e companheirismo são qualidades e necessidades humanas e por serem humanas são universais, essa é a lição da série de documentários Rise Above da Jordan. Esporte e relações internacionais com a sensibilidade dos artistas audiovisuais.

Como hoje é Sexta-Feira da Paixão dia de enorme significado religioso para os Cristãos de todo mundo e um feriado agradável para os que não são cristãos e vivem em países de cultura cristã, como o Brasil é também o dia que a Seleção de Basquete de Pirapora – MG, que tenho orgulho e espanto de pertencer, estréia na Etapa Micro-Regional Norte dos Jogos de Minas 2014 me pareceu oportuno apresentar essa série de documentários.

Não sou um sujeito consumista, meu carro é meu companheiro de longos anos, só troco celulares e computadores quando a relação custo - beneficio de manutenção não mais permite a permanência com os mesmos, já tive um semi-fetiche por comprar gravatas, que foi curado pela vida de trabalhar em home office, mas isso não quer dizer que eu seja contrário ao consumo ou pense que meus hábitos nesse quesito são superiores ou qualquer coisa assim, na verdade eu tenho um ponto fraco para o consumismo que são os tênis de basquete, acho que todos nós fanáticos ballers temos esse ‘desvio’ de caráter. E uns dos meus favoritos são os da marca Jordan, da Nike e pesquisando produtos dessa marca me deparei com uma série de documentários para Youtube chamada #RiseAbove, que narra diferente impactos do jogo de basquetebol ao redor do mundo.

A série retrata diferentes personagens como um amputado que decide jogar basquetebol em pé, a menina iraquiana que é fanática por esse esporte, os jovens de periferia que por medo da violência não tem muitas opções de lazer externo, vilarejo na ásia isolado que tem a quadra de basquete como atividade de lazer e que se orgulha muito dos títulos de seus jogadores.

O esporte como as artes nos lembra de uma óbvia verdade biológica que as vezes a política tenta negar somos todos humanos e embora muito diferentes em tons de pele, hábitos alimentares e traços culturais, somos todos em essência muito parecidos. Num mundo em que analisamos tanto leste-oeste, norte-sul é sempre bom não perder essa verdade de vista. Abaixo os documentários, assistam.

Rise Above Limits

 

Rise Above Conditions

Rise Above Expectation

Rise Above Isolation

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Morreu o ícone cultura Latino-americano Gabriel García Márquez

"O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança."

Gabriel García Márquez in

Memórias de minhas putas tristes, p. 79.

garcia marquezMorreu na Argentina, aos 87 anos, o escritor colombiano Gabriel García Márquez.  Conheci a obra de Garcia Márquez tardiamente creio que já graduado e foi arrebatador, seu realismo fantástico e o ritmo de sua escrita, mas principalmente o drama e as desventuras de seus protagonistas, dizia ele que todo autor sempre escreve o mesmo livro e o dele era o da solidão.

Carrego o medo de terminar como suas personagens, tinha medo de só conhecer o arrebatador amor aos meus 90 anos como o protagonista de ‘Memórias de minhas putas tristes’, ou de ser atormentado pelo peso da visão do futuro trágico da minha descendência como o Aureliano Buendía e, sobretudo temia ver minha amada viver uma existência completa sem mim. Medos esses foram dissipados pela vida e suas preocupações concretas, mas não inteiramente ou não seriam medos.

O velho mestre era comunista, e daí? Os gênios, também, têm direito a suas cegueiras tal qual o Dr. Juvenal Urbino de ‘Cartas nos tempos do cólera’ que morre tentando pegar um pássaro numa árvore.

Ah, García ya te extraño.

Hoje, depois de muito tempo choveu em Pirapora (aqui no árido norte de Minas), um pouco de Macondo pra registrar sua partida, velho escritor.

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Foto dos meus livros  favoritos do autor, na minha mesa de trabalho

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Nigéria: 200 meninas seqüestradas e a ostentação presidencial

 Bokoharam Acompanhar o noticiário internacional sobre um país em desenvolvimento implica em saber que nenhuma boa notícia fica impune, ou seja, sempre que esse país se destaca positivamente algo de seu lado mais atrasado acaba chamando atenção, também. Esse é o caso da agora 26ª economia do mundo e maior da África, a Nigéria.

Semana passada repercutiu amplamente nos meios de comunicação o novo patamar econômico da Nigéria, que já era uma realidade que não estava sendo captada nas estatísticas devido a desatualização metodológica que segundo reportam ignorava no calculo setores como telefonia móvel, e-commerce e a economia criativa.

Para quem não acompanha a África tão de perto, como eu, foi uma grata descoberta a participação expressiva da indústria do cinema no PIB Nigeriano, talvez seja a hora de um festival por aqui para que possamos ter acesso a esse cinema. As reportagens também faziam a inevitável comparação com a África do Sul, agora segunda economia e nossa parceira de IBAS E BRICS, que se sai melhor no quesito infra-estrutura e educação.

Infelizmente, esse momento de descobrir oportunidades e mais sobre o lado empreendedor e dinâmico da Nigéria foi interrompido por graves noticias com ares de dejá vu com mais um bárbaro ataque do Boko Haram.

O nome do grupo terrorista deixa claro seu alvo, já que Boko Haram é traduzido como “Educação ocidental é pecaminosa”. Não espanta que o ataque seja a um colégio interno para meninas.

A escola era guardada por tropas nigerianas que chegaram a trocar tiros com os terroristas antes de serem mortos no confronto, logo após 200 meninas foram retiradas de suas camas e colocadas em caminhões escoltados por motos e centenas de terroristas fortemente armados. Ainda não se sabe quais são os planos do grupo pra meninas seqüestradas. O ataque ocorreu no nordeste da Nigéria, região predominantemente muçulmana e uma das mais pobres do país.

Desde 2011, quando o Boko Haram atacou a representação da ONU, em Abuja, que o presidente nigeriano Godluck Jonathan tem pressionado seus militares para resolverem o problema da insurgência Boko Haram, sem muito sucesso, como visto pelo ousado ataque a escola.

Godluck Jonathan é o mesmo dos iPhones de ouro iphone de ourocomo lembrança do casamento de sua  filha, que gerou enorme controvérsia na Nigéria, por que pelo que tudo indica o mimo de alto luxo (e gosto duvidoso) foi pago pelo governo. E não é a primeira controvérsia causada por iPhones de ouro.

Esse tipo de atitude pode muito bem servir de combustível para a insurgência muçulmana em uma região empobrecida, onde os apologistas do terror fazem uso disso para incutir sua ideologia que no final acaba por seqüestrar e matar meninas por ousarem buscar uma educação, que não esteja circunscrita a particular interpretação da religião feita pelos extremistas. E, mesmo que os gastos tenham sido pagos pelo presidente e não pelo governo demonstra uma falta de sensibilidade política incompatível com a administração de um país complexo como a Nigéria, que enfrenta terrorismo e fome.

Até que ponto esse comportamento de ostentação do presidente e o clima de revolta que provoca não enfraquecem o moral das tropas que estão em combate? Enquanto isso é aterrador, desesperador mesmo, pensar o que pode está se passando com essas meninas.

UPDATE: O número de meninas sequestradas agora é estimado em 100, mas poderia ser uma só que não mudaria a natureza do atentado terrorista que são vítimas.

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Uma elucubração sobre Rússia, Crimeia, Ucrânia e Internet

senhoraspró-russia A Internet é mais que apenas uma mídia, um meio de comunicação, por sua interatividade instantânea (ou quase me lembrariam os físicos) é um eco-sistema das idéias que aceita todo tipo de pensamento do mais delirante teórico da conspiração ao mais embasado dos textos científicos, está tudo a um clique de distância, com ocasionais ‘pay-walls’ que a própria internet ensina como contornar, se o individuo assim desejar.

Os grupos das redes sociais aglutinados por interesses comuns são locais interessantes para descobrir novas visões ou caminhos, para divulgar seus projetos e/ou sanar dúvidas, mas também são locais em que pela natureza livre da rede você encontra todo tipo de raciocínio.

Estão particularmente serelepes na rede os saudosistas do poder soviético, não é pra menos, Putin tem falado todas as palavras de ordem que esses grupos gostam e tem feito os gestos de força que eles admiram e muitos desses saudosistas até abandonam agendas de Direitos Humanos que defendem com tanto afinco: Liberdade de expressão, direitos de minorias, notadamente homossexuais. Tudo em nome de confrontar o império.

Até escrevi sobre isso, com alguma ironia, quarta-feira passada:

Curioso é como os militantes na internet entendem a questão. Os defensores do ‘outro mundo possível’ são declaradamente anti-imperialistas e anti-americanos e curiosamente são grandes entusiastas da intervenção estrangeira desde que não seja do chamado bloco ocidental.

Não é difícil imaginar porcos afixando nas portas dos celeiros por toda a Internet teses em que se lê: “Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros” e as ovelhas virtuais bradando: “Imperialismo bom, imperialism bad”.

A assertividade russa calcada em visões neo-eurasianas sobre as necessidades de segurança e com demonstrações de força para uso eleitoral interno causam reações nas cercanias russas, as populações da Polônia, das Repúblicas Bálticas têm deixado claro a seus políticos suas apreensões com o avanço do urso. Esses governos pressionam por demonstrações de força da OTAN, que por outro lado reforçam os pressupostos teóricos que delineiam a política russa.

Nenhum analista seria ingênuo o suficiente para ignorar que serviços de inteligência russos e americanos estão atuando na Ucrânia, contando apoiadores de suas causas, sondando políticos, aferindo a temperatura política nas ruas, entre os formadores de opinião, entre os líderes de grupos mais radicais que estão na linha-de-frente e entre militares. Cada lado tentando moldar os acontecimentos de acordo com seus interesses e cedendo um pouco para acomodar os interesses locais no solo.

Publicamente trocam acusações de interferência e fazem discursos duros, todo mundo quer sair por cima politicamente. Obama é cada vez mais desafiado em seu ‘record’ de política externa, massacrado pelos republicanos como fraco e ingênuo. Putin graças aos saudosos que descrevi acima tem a chance de ser visto como vítima das maquinações do império, transformando seus opositores em inimigos da pátria, facilitando a consolidação de sua hegemonia.

Enquanto os grandes brincam de tabuleiro geopolítico, os admiradores aplaudem e escrevem justificações na academia e na mídia, a Ucrânia corre o risco de desaparecer, mas esse desaparecimento não será quieto como a anexação da Crimeia e muita tragédia humana estará na ordem do dia.

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Terrorismo é terrorismo

ataquekansas

Alguns ataques terroristas extremistas são tratados legalmente como crimes de ódio, tentativa de homicídios, homicídio, mas são em seus métodos e objetivos ações terroristas. Um desses ataques que será qualificado como crime de ódio e racismo foi o ataque a tiros ocorrido, em Kansas City, no estado americano do Kansas.

O responsável pelo ataque foi um verme* supremacista ariano (que é palavra grande pra racista), membro da Klu Klux Klan e neonazista, de 73 anos abriu fogo contra membros da comunidade judaica, na véspera do inicio das comemorações da Passach, a festa da libertação, a famosa Páscoa Judaica.

O ataque deixou 3 mortos, um avô e seu neto, escoteiro, e uma senhora assassinada num asilo judaico. O avô e o neto eram cristãos, como é de macabro costume os terroristas sempre matam mais pessoas dos grupos que eles dizem defender.

Como bem colocou Guga Chacra em seu blog:

“O atirador, depois de preso, teria gritado “Heil Hitler”. E não, ele não era muçulmano, como muitos islamofóbicos gostariam que fosse apenas para terem mais uma oportunidade de atacar os muçulmanos. O terrorista (sim, usarei esta expressão) era um americano branco, supremacista, racista, cristão, membro de Ku Klux Klan e de 73 anos chamado [...]*.

Existem pessoas que se tornam antissemitas por serem anti-Israel. Estas são mais comuns no mundo árabe. Existem pessoas que são anti-Israel por serem antissemitas. Estas são mais comuns na Europa. E existem pessoas que são antissemitas independentemente da posição que possuam em relação a Israel, pois também tendem a odiar os palestinos. Estes são os neonazistas europeus, americanos e mesmo no Brasil. Isto é, são antissemitas e islamofóbicos (e anti-árabes, pois em alguns casos não toleram cristãos do Oriente Médio) ao mesmo tempo.

Eu mesmo já ouvi de pessoas conhecidas que “judeus” e “libaneses” são os responsáveis por uma série de problemas do Brasil, como corrupção. Claro, estas pessoas, se ficarem doentes e tiverem condições, certamente tentarão se internar no Einstein ou no Sírio-Libanês. E não verão o menor problema em serem atendidos por um médico com sobrenome árabe ou judaico.”

Velhos ódios são persistentes e mesmo quando politicamente irrelevantes ainda são capazes de causar dor, e mostram quão difícil é tentar prevenir um ataque terrorista de algum fanático isolado, portanto, é preciso tratar com seriedade todo discurso radical, por mais caricato que pareça, ele pode esconder um verme assassino prestes a atacar.

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*Ainda que a terminologia verme seja bastante agressiva é assim que esse blog vê os terroristas e sempre usa o termo no lugar do nome dos terroristas.

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Diários de Política: O fator Scott Brown

Diários de Política é coluna* de Márcio Coimbra**

Brown Quando Scott Brown foi eleito para a cadeira de Ted Kennedy em 2010, muitos republicanos se entusiasmaram, afinal ele era o primeiro membro do partido eleito senador desde 1972 em um estado dominado pelos democratas, Massachusetts. A alegria não durou muito. Logo depois, em 2012, enfrentou uma difícil reeleição e foi abatido pela democrata Elizabeth Warren, que inclusive possui sonhos presidenciais. Mas o fato foi que Scott Brown, fora do Senado desde 2013, começou a enxergar novas alternativas.

A mais clara estava ao seu lado, no estado de New Hampshire. Ainda no último ano escutei de alguns republicanos que Brown estava de mudança para o estado vizinho a fim de viabilizar sua candidatura ao Senado por lá. Este não é um fato comum na política americana, onde os políticos geralmente desenvolvem por anos um contato intenso com sua base eleitoral. Mas Brown pensou diferente e rumou para Rye, onde sua família agora tem residência.

O que se pergunta agora é se ele será aceito pelos eleitores do novo estado. Para isso ele alega que possui laços antigos com New Hampshire, ou seja, que seus pais se conheceram por lá e que passava suas férias desde criança na costa do estado. Mas será isso suficiente? O fato de que praticamente um em cada quatro moradores de New Hampshire tem origem em Massachusetts pode ajudá-lo, mas existe um outro fator que pode fazer diferença: comparado com o estado vizinho, tradicionalmente democrata, a nova casa de Brown conta com um maior contingente de eleitores republicanos e independentes.

Mas o caminho de Brown não será fácil. Ele enfrentará Jeanne Shaheen, um peso pesado dos democratas. Ela atualmente ocupa o assento em disputa este ano e traz no currículo a experiência de ter sido Governadora e ter trabalhado em três campanhas presidenciais. Suas credenciais como uma grande estrategista, contudo, não assustam os republicanos. Talvez o que mais assuste seja o desejo de Elizabeth Warren, que derrotou Brown em Massachusetts em 2012, em evitar que seu adversário volte para Washington. Warren está disposta a colocar seu exército de doadores de campanha em favor de Shaheen.

Mas os republicanos estão prontos para a briga. Brown já movimenta sua máquina de doadores conservadores de Massachusetts dispostos a desequilibrar a eleição em New Hampshire. O GOP também está focado em ajudar Brown, uma vez que sua vitória pode ajudar a virar a maioria no Senado. O campo de batalha agora é em New Hampshire.

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*Márcio Coimbra é correspondente Coisas Internacionais, em Washington, D.C. Também colabora com o portal Poder Político e com o BrasilPost.

**A Coluna Diários de Política circula normalmente aos domingos.

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Abismo entre gerações ou uma historieta sobre um “não evento”, por Francisco Seixas da Costa

telefonista Sempre que posso republico textos aqui que têm como intuito contribuir com o debate que pretendo nesse blog, a maior parte deles aborda questões que não domino com fluência. O texto de hoje, contudo, é dessas observações da vida que a falta de maiores talentos literários me impedem de formalizar com elegância e alguma graça como faz Francisco Seixas da Costa.

Lido diariamente com crianças e adolescentes em projetos de iniciação esportiva na modalidade basquetebol e ainda estou na casa dos 30 (e alguns) anos então não há grande abismo geracional, porém, já posso vislumbrar o chegar desse abismo, principalmente nas referências de cultura popular que nos ajudam a ilustrar conceitos e tornam nossas intervenções em eventos menos maçantes e nesse sentido posso dizer que entendo o que o embaixador relata, principalmente quando fala de observar o auditório a fim de saber se algum gracejo será bem acolhido, ou pelo menos entendido.

O "22 de Paio Pires"

Por Francisco Seixas da Costa

Há dias, num debate, tive uma ideia "peregrina": falar do "22 de Paio Pires". Havia uma boa razão para isso: estava a tomar a palavra perante um auditório da localidade de Paio Pires. Mas que diabo é o "22 de Paio Pires", perguntarão alguns? Pois é, leitor, foi pela certeza de que a esmagadora maioria do auditório de Paio Pires, ao qual eu falava, não fazia a mais leve ideia do que era o "22 de Paio Pires" que decidi não abordar o tema. Esta é, portanto, desculpem lá!, uma histórieta sobre um "não evento".

O "22 de Paio Pires" foi um divertidíssimo "sketch", interpretado por um ator de que a maioria dos leitores deste blogue também nunca ouviu falar: Humberto Madeira (1921-1971). Madeira tentava ligar para o número de telefone 22 da localidade de Paio Pires e, sequencialmente, saiam-lhe à linha uma diversidade de interlocutores errados, o que tornava a conversa hilariante.

Falo disto pela circunstância, que cada vez mais me acontece, de ter de cuidar, em conversas ou intervenções públicas, em escolher referências que possam ser entendidas pela generalidade das pessoas presentes. Sei que isto é claramente uma questão etária, mas confesso que começa a ser angustiante ter de olhar em volta, medindo o conhecimento médio do auditório, antes de citar um facto, um autor ou fazer uma graçola com base numa citação.

Tempos atrás, comecei a contar num grupo de jovem colaboradores uma história relacionada com Pedro Moutinho, uma das mais populares figuras da rádio dos anos 40 a 60. Conheci Moutinho bastante bem, já depois do 25 de abril, em circunstâncias curiosas - mas só relevantes em função do conhecimento do passado de Pedro Moutinho. Ele deixara de ser locutor e fora mesmo algo hostilizado pelo regime democrático. A certo passo da minha narrativa, pela cara dos presentes, dei-me conta de que estava a fazer verdadeira "geometria no espaço". Ninguém ouvira alguma vez falar de Pedro Moutinho, pelo que a minha historieta pessoal com este último não tinha, aos seus ouvidos, a menor relevância. Os sorrisos simpáticos que dedicavam ao que lhes dizia relevavam mais de uma piedosa tolerância do que de uma genuína atenção. Aprendi a lição.

Talvez por isso, abstive-me de contar o episódio do "22 de Paio Pires". Mesmo em Paio Pires.

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FMI e pessimismo por Mansueto Almeida

FMI PRÉDIO Mansueto é um desses analistas que sabe se comunicar de maneira clara e com domínio da linguagem. E mais uma vez tenho prazer em transcrever suas análises que enriquecem o debate que proponho nessa página. Original pode ser lido aqui.

FMI e pessimismo

Por Mansueto Almeida

Sei que muita gente vai ficar com raiva do FMI por ter falado, recentemente, segundo matéria on line do jornal Valor Econômico, que:

“A dívida bruta brasileira deve ficar em 66,7% do PIB neste ano, de acordo com o FMI, bem acima da média dos emergentes, de 33,7% do PIB. Na quarta-feira, o Fundo disse que a meta de superávit primário de 1,9% do PIB definida pelo governo brasileiro para este ano é apropriada, mas ressaltou que é importante que no médio prazo o Brasil volte a ter um alvo na casa de 3% do PIB.”

O FMI acertou na mosca. E esse tipo de projeção não é só do FMI. Apostaria que mais de 90% dos analistas brasileiros acreditam que o superávit primário confortável deveria ficar acima de 2,5% do PIB. Assim, o que o FMI está sugerindo não é algo anormal em relação ao que já se fala aqui no Brasil, seja lá na Rua Humaitá no Rio de Janeiro ou mesmo na Av. Brigadeiro Faria Lima em São Paulo.

Agora, antes de alguém atirar pedras no FMI é bom lembrar que, no momento, os grandes pessimistas são nossos conterrâneos e não o pessoal lá de fora. Até mesmo o presidente da Eurasia Group, Ian Bremmer, no seu ultimo relatório distribuído para clientes no início desta semana notou o excesso de pessimismo, injustificado segundo ele, por aqui:

“you could say it’s not the most propitious time to open a brazil office–it’s been decades since the brazilian private sector has been so despondent about their government and their country’s overall trajectory. it’s a combination of expectations of persistent low growth, higher inflation, and strong discontent with the lack of reform trajectory of president dilma rousseff. I found the local business community more vocal and negative than their brethren in argentina when i visited a few months ago…….but well beyond that, there are plenty of reasons to push back on local pessimism.

O ponto é que os grandes pessimistas de hoje quanto ao comportamento da economia brasileira estão aqui e não lá fora. Com destaque especial, segundo escutei de um grande investidor lá e fora que tem uma das melhores equipes de análise de mercados emergentes, os gestores de fundos do Rio de Janeiro. Eles estão mais pessimistas do que os economistas.

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Coisas Internacionais nas Escolas

sala-de-aula O projeto “Coisas Internacionais nas Escolas” objetiva levar aos alunos do Ensino Médio discussões sobre a temática das Relações Internacionais de uma maneira adequada aos jovens.

A temática é adequada pra se coadunar com os conteúdos ensinados nas disciplinas de história, geografia e filosofia, contribuindo para a transdisciplinaridade presente nas avaliações como a do ENEM.

Além disso, há uma parte do evento dedicada a apresentar a profissão de analista das Relações Internacionais de maneira realista com advertência quanto às dificuldades sem que isso seja feito de modo a desestimular os que porventura tenham nessa carreira seus objetivos de curso superior.

O projeto tem como escopo as escolas públicas ou privadas de Pirapora, Buritizeiro e Várzea da Palma, na região Norte do estado de Minas Gerais, mas pode ser replicado com facilidade em todos os locais do Brasil, uma vez que os recursos necessários são apenas um profissional de RI com alguma capacidade de oratória e uma sala de aula minimamente motivada (já que os adolescentes são conhecidos por sua atitude blasé).

O projeto terá seu evento beta, em 25 de abril, na Escola Estadual Coronel Ramos e envolverá duas turmas do ultimo ano do Ensino Médio e terá como temática dominante o fenômeno da Regionalização em sinergia com conteúdos ministrados na disciplina de geografia.

O ‘Coisas Internacionais nas Escolas’ é mais uma ação de responsabilidade social do Coisas Internacionais juntamente com o patrocínio financeiro e doação de tempo para os projetos de massificação do basquetebol e planejamento estratégico do Pirapora Basquete.

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Venezuela e Ucrânia: Sim, há semelhanças ou uma curta provocação

revoluçãodosbichos

Nós analistas, em vias gerais, temos gasto uma considerável parte de nossas falas e escritos para tentar evitar que se confundam as crises vividas pela Venezuela e pela Ucrânia que certamente possuem diferenças marcantes. Mas, há um elemento de semelhança no gérmen das duas crises, que é a insatisfação com a ingerência externa consentida pelo governo. No caso venezuelano é a interferência cubana, notadamente nos meios militares, nas decisões do governo. E no caso ucraniano foi a submissão do governo as estratégias de segurança russas que não aceitam laços institucionais mais profundos com organismos da Europa Ocidental.

Nos dois casos a justificativa pra ingerir nos assuntos e destinos de outra nação soberana é o risco da ingerência por parte de outra potência. A Rússia anexou a Criméia por que acusa o novo regime ucraniano de ser títere de Washington e Bruxelas. E na Venezuela a ingerência cubana é articulada em termos de cooperação e anti-imperialismo.

A deputada cassada pelo regime bolivariano Maria Corina Machado em entrevista ao Roda Viva (íntegra no vídeo abaixo) colocou como a questão da ingerência é catalisadora da oposição ao regime:

“Primeiramente, é preciso dizer que a intervenção estrangeira na Venezuela, que é o que repudiamos, é a forma como a soberania venezuelana foi sendo entregue progressivamente a outro país. E me refiro precisamente a Cuba. A forma como o governo cubano foi penetrando nas instituições venezuelanas desde os órgãos de segurança, de inteligência, os cartórios, os registros mercantis, até as hidrelétricas, as subestações elétricas da Venezuela têm a presença de funcionários do governo cubano. Mais ainda, as Forças Armadas venezuelanas. Eu lhe pergunto: como você se sentiria se nas Forças Armadas do Brasil existissem militares cubanos dando ordem a seus generais, oficiais ou soldados? Se há algo que nós venezuelanos rechaçamos, repudiamos, é a interferência de outro governo, ao qual o sr. Maduro dá de presente 12 bilhões de dólares ao ano, indispensáveis para que este regime subsista, enquanto os venezuelanos não têm comida, remédios ou gás em suas casas.” [Grifo Nosso]

No caso da Ucrânia a situação é ainda pior no ponto de vista de como a crise é vista e manipulada pelas potências estrangeiras, uma vez que Moscou e Washington vêm os ucranianos como peões em seu tabuleiro, a vontade do povo é um pixel perdido na “Big Picture”, mas os ucranianos têm conseguido fazer de seus limões, limonadas e vão instrumentalizando interesses estrangeiros para tentar avançar suas agendas e por isso a situação é tão difícil de analisar.

Curioso é como os militantes na internet entendem a questão. Os defensores do ‘outro mundo possível’ são declaradamente anti-imperialistas e anti-americanos e curiosamente são grandes entusiastas da intervenção estrangeira desde que não seja do chamado bloco ocidental.

Não é difícil imaginar porcos afixando nas portas dos celeiros por toda a Internet teses em que se lê: “Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros” e as ovelhas virtuais bradando: “Imperialismo bom, imperialism bad”.

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PS: É recomendável a leitura dos seguintes artigos. La mano de Cuba en una Venezuela en crisis, do jornalista e dramaturgo Ibsen Martinez. E a entrevista do ex-colaboracionista chavista e atual procurado pelo regime, general Antonio Rivero, ao Telegraph.

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U.S. Defense Policy in the Wake of the Ukrainian Affair Por George Friedman

Carrier_Strike_Group_Twelve Uma excelente peça analítica de George Friedman que analisa as hipóteses de emprego de poder militar e necessidades estratégicas relembradas pela eclosão da crise ucraniana. Ou seja, a velha natureza anárquica do sistema internacional que parecia modificada pelo adensamento de jurisdições internacionais, mas que lá permanece como verdade indômita, a guerra entre Estados-Nações continua a ser uma possibilidade real.

Os Estados Unidos continuam sendo a potência hegemônica, mas hegemonia não significa onipotência e nem que os demais atores do sistema não tentarão elevar seu nível de poder e está cada vez mais claro que hegemonia americana será ameaçada e questionada.

É uma leitura interessante ainda que totalmente voltada para a política de defesa americana (como o título deixa claro) e que contêm elementos para tentar entender como se comportam os estados, não há dúvidas que por mais controverso que seja o Stratfor é um meio influente e capta bem o zeitgeist.

U.S. Defense Policy in the Wake of the Ukrainian Affair

Por George Friedman

Ever since the end of the Cold War, there has been an assumption that conventional warfare between reasonably developed nation-states had been abolished. During the 1990s, it was expected that the primary purpose of the military would be operations other than war, such as peacekeeping, disaster relief and the change of oppressive regimes. After 9/11, many began speaking of asymmetric warfare and "the long war." Under this model, the United States would be engaged in counterterrorism activities in a broad area of the Islamic world for a very long time. Peer-to-peer conflict seemed obsolete.

There was a profoundly radical idea embedded in this line of thought. Wars between nations or dynastic powers had been a constant condition in Europe, and the rest of the world had been no less violent. Every century had had systemic wars in which the entire international system (increasingly dominated by Europe since the 16th century) had participated. In the 20th century, there were the two World Wars, in the 19th century the Napoleonic Wars, in the 18th century the Seven Years' War, and in the 17th century the Thirty Years' War.

Those who argued that U.S. defense policy had to shift its focus away from peer-to-peer and systemic conflict were in effect arguing that the world had entered a new era in which what had been previously commonplace would now be rare or nonexistent. What warfare there was would not involve nations but subnational groups and would not be systemic. The radical nature of this argument was rarely recognized by those who made it, and the evolving American defense policy that followed this reasoning was rarely seen as inappropriate. If the United States was going to be involved primarily in counterterrorism operations in the Islamic world for the next 50 years, we obviously needed a very different military than the one we had.

There were two reasons for this argument. Military planners are always obsessed with the war they are fighting. It is only human to see the immediate task as a permanent task. During the Cold War, it was impossible for anyone to imagine how it would end. During World War I, it was obvious that static warfare dominated by the defense was the new permanent model. That generals always fight the last war must be amended to say that generals always believe the war they are fighting is the permanent war. It is, after all, the war that was the culmination of their careers, and imagining other wars when they are fighting this one, and indeed will not be fighting future ones, appeared frivolous.

The second reason was that no nation-state was in a position to challenge the United States militarily. After the Cold War ended, the United States was in a singularly powerful position. The United States remains in a powerful position, but over time, other nations will increase their power, form alliances and coalitions and challenge the United States. No matter how benign a leading power is -- and the United States is not uniquely benign -- other nations will fear it, resent it or want to shame it for its behavior. The idea that other nation-states will not challenge the United States seemed plausible for the past 20 years, but the fact is that nations will pursue interests that are opposed to American interest and by definition, pose a peer-to-peer challenge. The United States is potentially overwhelmingly powerful, but that does not make it omnipotent.

Systemic vs. Asymmetric War

It must also be remembered that asymmetric warfare and operations other than war always existed between and during peer-to-peer wars and systemic wars. The British fought an asymmetric war in both Ireland and North America in the context of a peer-to-peer war with France. Germany fought an asymmetric war in Yugoslavia at the same time it fought a systemic war from 1939-1945. The United States fought asymmetric wars in the Philippines, Nicaragua, Haiti and other places between 1900-1945.

Asymmetric wars and operations other than war are far more common than peer-to-peer and systemic wars. They can appear overwhelmingly important at the time. But just as the defeat of Britain by the Americans did not destroy British power, the outcomes of asymmetric wars rarely define long-term national power and hardly ever define the international system. Asymmetric warfare is not a new style of war; it is a permanent dimension of warfare. Peer-to-peer and systemic wars are also constant features but are far less frequent. They are also far more important. For Britain, the outcome of the Napoleonic Wars was much more important than the outcome of the American Revolution. For the United States, the outcome of World Was II was far more important than its intervention in Haiti. There are a lot more asymmetric wars, but a defeat does not shift national power. If you lose a systemic war, the outcome can be catastrophic.

A military force can be shaped to fight frequent, less important engagements or rare but critical wars -- ideally, it should be able to do both. But in military planning, not all wars are equally important. The war that defines power and the international system can have irreversible and catastrophic results. Asymmetric wars can cause problems and casualties, but that is a lesser mission. Military leaders and defense officials, obsessed with the moment, must bear in mind that the war currently being fought may be little remembered, the peace that is currently at hand is rarely permanent, and harboring the belief that any type of warfare has become obsolete is likely to be in error.

Ukraine drove this lesson home. There will be no war between the United States and Russia over Ukraine. The United States does not have interests there that justify a war, and neither country is in a position militarily to fight a war. The Americans are not deployed for war, and the Russians are not ready to fight the United States.

But the events in Ukraine point to some realities. First, the power of countries shifts, and the Russians had substantially increased their military capabilities since the 1990s. Second, the divergent interests between the two countries, which seemed to disappear in the 1990s, re-emerged. Third, this episode will cause each side to reconsider its military strategy and capabilities, and future crises might well lead to conventional war, nuclear weapons notwithstanding. Ukraine reminds us that peer-to-peer conflict is not inconceivable, and that a strategy and defense policy built on the assumption has little basis in reality. The human condition did not transform itself because of an interregnum in which the United States could not be challenged; the last two decades are an exception to the rule of global affairs defined by war.

U.S. national strategy must be founded on the control of the sea. The oceans protect the United States from everything but terrorism and nuclear missiles. The greatest challenge to U.S. control of the sea is hostile fleets. The best way to defeat hostile fleets is to prevent them from being built. The best way to do that is to maintain the balance of power in Eurasia. The ideal path for this is to ensure continued tensions within Eurasia so that resources are spent defending against land threats rather than building fleets. Given the inherent tensions in Eurasia, the United States needs to do nothing in most cases. In some cases it must send military or economic aid to one side or both. In other cases, it advises.

U.S. Strategy in Eurasia

The main goal here is to avoid the emergence of a regional hegemon fully secure against land threats and with the economic power to challenge the United States at sea. The U.S. strategy in World War I was to refuse to become involved until it appeared, with the abdication of the czar and increasing German aggression at sea, that the British and French might be defeated or the sea-lanes closed. At that point, the United States intervened to block German hegemony. In World War II, the United States remained out of the war until after the French collapsed and it appeared the Soviet Union would collapse -- until it seemed something had to be done. Even then, it was only after Hitler's declaration of war on the United States after the Japanese attack on Pearl Harbor that Congress approved Roosevelt's plan to intervene militarily in continental Europe. And in spite of operations in the Mediterranean, the main U.S. thrust didn't occur until 1944 in Normandy, after the German army had been badly weakened.

In order for this strategy, which the U.S. inherited from the British, to work, the United States needs an effective and relevant alliance structure. The balance-of-power strategy assumes that there are core allies who have an interest in aligning with the United States against regional enemies. When I say effective, I mean allies that are capable of defending themselves to a great extent. Allying with the impotent achieves little. By relevant, I mean allies that are geographically positioned to deal with particularly dangerous hegemons.

If we assume Russians to be dangerous hegemons, then the relevant allies are those on the periphery of Russia. For example, Portugal or Italy adds little weight to the equation. As to effectiveness, the allies must be willing to make major commitments to their own national defense. The American relationship in all alliances is that the outcome of conflicts must matter more to the ally than to the United States.

The point here is that NATO, which was extremely valuable during the Cold War, may not be a relevant or effective instrument in a new confrontation with the Russians. Many of the members are not geographically positioned to help, and many are not militarily effective. They cannot balance the Russians. And since the goal of an effective balance-of-power strategy is the avoidance of war while containing a rising power, the lack of an effective deterrence matters a great deal.

It is not certain by any means that Russia is the main threat to American power. Many would point to China. In my view, China's ability to pose a naval threat to the United States is limited, for the time being, by the geography of the South and East China seas. There are a lot of choke points that can be closed. Moreover, a balance of land-based military power is difficult to imagine. But still, the basic principle I have described holds; countries such as South Korea and Japan, which have a more immediate interest in China than the United States does, are supported by the United States to contain China.

In these and other potential cases, the ultimate problem for the United States is that its engagement in Eurasia is at distance. It takes a great deal of time to deploy a technology-heavy force there, and it must be technology-heavy because U.S. forces are always outnumbered when fighting in Eurasia. The United States must have force multipliers. In many cases, the United States is not choosing the point of intervention, but a potential enemy is creating a circumstance where intervention is necessary. Therefore, it is unknown to planners where a war might be fought, and it is unknown what kind of force they will be up against. The only thing certain is that it will be far away and take a long time to build up a force. During Desert Storm, it took six months to go on the offensive.

American strategy requires a force that can project overwhelming power without massive delays. In Ukraine, for example, had the United States chosen to try to defend eastern Ukraine from Russian attack, it would have been impossible to deploy that force before the Russians took over. An offensive against the Russians in Ukraine would have been impossible.Therefore, Ukraine poses the strategic problem for the United States.

The Future of U.S. Defense Policy

The United States will face peer-to-peer or even systemic conflicts in Eurasia. The earlier the United States brings in decisive force, the lower the cost to the United States. Current conventional war-fighting strategy is not dissimilar from that of World War II: It is heavily dependent on equipment and the petroleum to power that equipment. It can take many months to field that force. That could force the United States into an offensive posture far more costly and dangerous than a defensive posture, as it did in World War II. Therefore, it is essential that the time to theater be dramatically reduced, the size of the force reduced, but the lethality, mobility and survivability dramatically increased.

It also follows that the tempo of operations be reduced. The United States has been in constant warfare since 2001. The reasons are understandable, but in a balance-of-power strategy war is the exception, not the rule. The force that could be deployed is seen as overwhelming and therefore does not have to be deployed. The allies of the United States are sufficiently motivated and capable of defending themselves. That fact deters attack by regional hegemons. There need to be layers of options between threat and war.

Defense policy must be built on three things: The United States does not know where it will fight. The United States must use war sparingly. The United States must have sufficient technology to compensate for the fact that Americans are always going to be outnumbered in Eurasia. The force that is delivered must overcome this, and it must get there fast.

Ranges of new technologies, from hypersonic missiles to electronically and mechanically enhanced infantryman, are available. But the mindset that peer-to-peer conflict has been abolished and that small unit operations in the Middle East are the permanent features of warfare prevent these new technologies from being considered. The need to rethink American strategy in the framework of the perpetual possibility of conventional war against enemies fighting on their own terrain is essential, along with an understanding that the exhaustion of the force in asymmetric warfare cannot be sustained. Losing an asymmetric war is unfortunate but tolerable. Losing a systemic war could be catastrophic. Not having to fight a war would be best.

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Venezuela: Comissão de Chanceleres, agora vai?

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O horizonte próximo não parece muito favorável ao diálogo e a normalização da política venezuelana, isso por que a oposição nas ruas e no sistema político não tem esmorecido diante das táticas de alta pressão do regime bolivariano, nem a destituição de Maria Corina Machado nem as condenações, em tempo recorde para os padrões continentais, de líderes da oposição surtiram o efeito, por outro lado a pressão das ruas também não é capaz de mover o regime na direção que os opositores desejam, ou seja, a pressão não tem conseguido que o regime desista de processar e manter presos opositores ou que substitua os ministros do Tribunal Superior de Justiça, Conselho Nacional Eleitoral.

O impasse tem servido para polarizar ainda mais a Venezuela e o risca cada vez mais real é que se rompa com qualquer chance de restauração dos padrões mínimos de convivência política, em outras palavras, o pior cenário possível é que a crise culmine num conflito armado. Claro, que para isso acontecer é preciso uma “tempestade perfeita”, mas ainda assim a violência das milícias chavistas e as divisões nas Forças Armadas da Venezuela nos lembram que esse cenário não pode ser descartado.

A UNASUR enviou ontem sua missão para facilitar o diálogo entre as partes, que é composta pelos chanceleres de Brasil, Colômbia e Equador. Desde que o impasse ficou claro, eu tenho insistido que os Bons Ofícios dos vizinhos são essenciais para que se alcance um diálogo efetivo que poupe vidas e que poupe a Venezuela de um recrudescimento do chavismo ou de uma ruptura institucional traumática.

Mas, como tenho escrito aqui – e outros analistas e observadores, também – para que a intermediação seja eficiente em facilitar o acordo seria preciso o mínimo de neutralidade (se é que exista graduações de neutralidade) por parte dos facilitadores externos.

E a postura brasileira (mais Planalto que Itamaraty) tem sido de usar a cobertura do principio de ‘não-intervenção’ sempre que se cobre uma postura sobre os abusos praticados pelo governo venezuelano e o boicote aos oposicionistas como vimos na manobra brasileira para impedir a publicidade na fala de Maria Corina na OEA demonstram uma inclinação da diplomacia brasileira pelo lado do regime. Poder-se-ia argumentar que isso deriva de uma visão brasileira em prol dos governos eleitos como entes legítimos, mas fosse esse o caso o Brasil não faria tanta questão de ser neutro (ao negar afirmar que se trata de um grupo narco-terrorista) diante da FARC.

Isso significa que a missão tem uma dificuldade patente de cumprir sua missão de facilitar o diálogo e pior pode ser usada como endosso para a radicalização oficial ou opositora.

Até agora a Comissão de Chanceleres da UNASUR não pediu pela libertação dos detidos e um recuo na busca por condenações dos líderes da oposição que é para oposição condição sine qua non para a negociação. Os ministros conseguiram que Maduro se reúna com os opositores. Um sinal interessante se for seguido de passos concretos na direção da pacificação política, ou será apenas outra Conferência Nacional para a Paz. E a UNASUR pode acabar assistindo a mediação da Santa Sé ser mais efetiva, por que consegue ser considerada neutra.

E o impasse vai se arrastando e os ânimos vão se exaltando. E os atos de violência política e comum continuam a ocorrer.

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Brasil da ditadura e Iraque: Uma entrevista que precisa ser lida

Sergio Tutikian

Normalmente não copio textos da imprensa, mas acredito que essa entrevista tem valor didático por abrir uma porta para os bastidores da Política Externa Brasileira, no período dos choques do petróleo. É interessante notar que durante aquele tempo de forte discurso sul-sul, dizia-se “não-alinhado” de denúncia das potências estabelecidas, o comportamento brasileiro era muito parecido com o que buscava condenar, ainda que timidamente, dado as restrições objetivas daquela época. Exemplar é o caso da condenação do sionismo como racismo que foi feito para garantir o fluxo de petróleo iraquiano preço político alto pago pela ditadura em troca.

O embaixador Sérgio Tutikian relata os desafios pessoais da vida dedicada às coisas internacionais e como desafios e simpatias pessoais influem na construção da política externa. Relações essas que por vezes são negligenciadas pelos analistas acadêmicos.

Abaixo segue a entrevista. Muito bem conduzida pelo repórter da Zero Hora Cláudio Goldberg Rabin.

ITAMARATY

O senhor embaixador / Entrevista / Sergio Tutikian

Cláudio Goldberg Rabin

Zero Hora, 31/03/2014

No apartamento no bairro Moinhos de Vento há quadros italianos e iraquianos, vasos chineses, tapetes persas e esculturas do Azerbaidjão. Pode parecer um cenário de kitsch, mas cada peça é parte de uma raiz difusa de um homem que cruzou o mundo, mas não se fixou em lugar nenhum. O embaixador Sergio Tutikian partiu de Porto Alegre, onde ficou até prestar o concurso para o Itamaraty em 1964, para retornar após se aposentar.

Viveu na Bolívia, fugiu da Brasília de pó, barro e militares dos anos 1970, morou no Irã da opulência esbanjadora dos tempos do xá e da repressão religiosa pós-Revolução Islâmica. Sobretudo, serviu no Iraque durante a guerra com os rivais iranianos, quando o segundo choque do petróleo colocou a economia brasileira de joelhos e o país teve de vender a alma diante da dependência do regime carniceiro de Saddam Hussein. Foi espionado e conheceu de perto os reatores nucleares que os engenheiros brasileiros ajudaram a construir.

Na entrevista a seguir, o diplomata de 74 anos de idade e 40 de carreira, fala sobre os problemas da profissão, as nuances das relações entre países, \as ameaças que sofreu e revela detalhes da trajetória de um gaúcho que esteve onde a história da segunda metade do século 20 aconteceu.

O que é um diplomata?

No país estrangeiro, é autoridade máxima, representa o presidente da República. O diplomata não se manifesta. Diplomata é só diplomata. No momento que você tentar sair das suas funções, por exemplo, e querer espionar no Iraque, como aconteceu com colegas meus, você acaba se incomodando e pode ser até ameaçado de morte.

O que levou o senhor para a vida diplomática?

Tive dois colegas que influenciaram. Um era o Manuel Maurício Cardoso, cujo pai era ministro na Bélgica. Ele estudou no mesmo colégio que eu, o Instituto Porto Alegre, o IPA. O Manuel era interno, coisa que havia naquela época. Nos finais de semana ele ia para minha casa. Outro foi Udt Bertrand, que hoje é diplomata da (chanceler alemã) Angela Merkel. Eles me mostraram o que é a carreira. Não havia informação, era tudo muito difícil aqui em Porto Alegre, as livrarias eram muito pobres. Mais ou menos por 1958 eu comecei a gestar a ideia. Fiz Direito na UFRGS, fui para o Rio de Janeiro, fiz o vestibular e consegui passar contra todos os auspícios e as ideias das pessoas que achavam que eu, sendo filho de imigrante da primeira geração, dificilmente entraria.

Filhos de imigrantes eram barrados?

Houve dois momentos no Itamaraty, tanto com relação ao aspecto socioeconômico quanto na parte da linhagem. Quando falo em linhagem, me refiro àqueles que têm pai, avô, mãe, dentro da carreira, como é o caso do (ex-ministro de Relações Exteriores Antônio) Patriota. Fiz o vestibular exatamente quando houve o golpe de 64. Houve uma “democratização do Itamaraty”. Até então, só entravam famílias que tinham linhagem na carreira e nomes de origem portuguesa e espanhola. Era muito difícil filhos de imigrantes do Oriente Médio, israelitas, negros ou pardos entrarem. Mas, na minha turma de 26, metade era descendente de imigrantes. Os militares resolveram abrir um pouco a coisa, também porque os adidos que existiam nas embaixadas tinham filhos, e esses filhos queriam entrar na carreira.

O batizado no Exterior foi na Bolívia?

Eu recém tinha saído do curso. Você veja a imprudência de quem me mandou (risos). Fui para La Paz substituir um colega. Acabei ficando sozinho. Sempre tivemos relações difíceis com a Bolívia. Aí, se deu o problema do asilo. Era o chefe do Estado-maior da Bolívia. Eu sofria pressão local e não se podia consultar Brasília, porque as comunicações eram difíceis. Um telefonema levava uma semana para a gente conseguir. O sistema criptográfico era muito primitivo, feito à mão. Tive de resolver sozinho. Isso propiciou que eu pudesse sair para o Exterior sem ir para Brasília.

Por que não Brasília?

Era um horror! Era só poeira e barro em 1970. Daí, fui considerado apto por causa da Bolívia, e acabei indo para Teerã. O que condicionou a minha carreira foi o acaso.

Havia algum cidadão brasileiro no Irã em 1970?

Existia a prima-irmã do (cirurgião plástico Ivo) Pitanguy. O Pitanguy modelou quase todos os narizes das princesas na época do xá. E ela acabou se apaixonando e casando com um iraniano, o que é mais comum do que a gente pensa. Mas sei o que tu queres dizer: era uma embaixada puramente de representação, não havia o que fazer. Aproveitei para estudar língua e civilização persa na Universidade de Teerã. Fazia esqui, também ia à praia, no Mar Cáspio.

Como era o Irã pré-revolução?

Era agradabilíssimo. A vida noturna era melhor do que em certos países da Europa. A liberdade era total, você podia fazer o que quisesse, desde que não falasse de política. Existia uma polícia secreta, a Savak, que acaba contigo, com tua família, com todo mundo. Posso te garantir que, mesmo com os aiatolás, prolifera a prostituição até hoje e tudo que tu puderes imaginar acontece. Eles chegavam a ter um bairro, que seria o equivalente ao Botafogo e Flamengo juntos, só para prostituição. Era bastante interessante. Quando o Santos jogou lá, até levei o Pelé para ver como era exótico. Você entrava nas casas e, como se fosse um palco, eles apresentavam as especialidades da casa. Não me pergunta quais são, porque algumas você ficaria horrorizado.

Quais eram as especialidades da casa?

Não, não, não (risos).

O xá Reza Pahlavi era completamente megalomaníaco. Um exemplo famoso foi a ostentação da festa de 2.500 anos do Império Persa, em 1971.

Ele quis festejar a data, esquecendo que o pai dele, que era um militar, havia dado um golpe na dinastia Qajar. Comemorou como se não tivesse havido nenhuma interrupção. Teerã foi decorada pela França, era uma coisa suntuosa feita durante o dia e destruída durante a noite pela população revoltada. Modelo Fifa (risos). Depois, as celebrações foram em Persépolis. Eu não deveria estar lá. Fui porque o Brasil não mandou chefe de Estado. Foi um ministro e o embaixador, mas o ministro só falava português e pediu que eu fosse. Na minha mesa estavam a princesa Anne, da Inglaterra; a princesa Sirikit, da Tailândia; e a Begum (Aga Khan III, nascida Yvette Labrousse), que tinha sido a miss França. Não se podia pagar nada, nem cabeleireiros para mulheres nem passagens de avião para Teerã. E os presentes eram patacões de ouro, abotoaduras com brilhantes da casa real do Irã que eu ganhei da princesa Ashraf, irmã gêmea do xá, que jogava os amantes no Mar Cáspio.

O Oriente Médio nunca abandonou o senhor?

Eu voltei para o Brasil, para a Secretaria de Estado, onde eu fui trabalhar com o embaixador Marcos Azambuja na área do Oriente Médio. E peguei quatro anos da guerra Irã-Iraque. De 1980 a 1984. A guerra vai até 1988.

Como é viver em um país estrangeiro em guerra?

É mais fácil do que viver o que meu colega está passando agora em Bagdá. Mas claro que é difícil. Primeiro, o desconforto. As primeiras coisas que eles bombardeiam são as usinas de eletricidade, daí não há gasolina, não tem carro, a comida não chega. Não vou dizer que não tinha medo. Eu tinha. Não cheguei a ficar biruta, aguentei. Trabalhei com generais que eram meus chefes, e eles não deixavam a gente sair do posto. Fiquei dois anos sem poder tirar férias. Não tinha luz, as ruas ficavam escuras. Tocava uma sirene para a gente correr para os abrigos e, por muito tempo, já no Brasil, tocava uma sirene de polícia, e eu corria.

Como o senhor conseguia comida?

Eu sou de descendência armênia. Minha empregada, uma iraquiana de origem armênia, era chefe de um supermercado do governo. Então, ela tinha de abrir o supermercado de manhã para limpeza, pegava o que tinha e trazia para mim. Senão eu teria passado muito mal. Os meus colegas foram para o acampamento da empreiteira Mendes Júnior. Naquele momento, a gente chegou a ter 20 mil brasileiros no Iraque, trabalhando no esforço de guerra. A empresa conseguia trazer comida do Brasil. Fiquei em Bagdá porque era o substituto do embaixador.

Saddam era especialmente cruel. Usou armas químicas na guerra. Esses relatos não chegavam até vocês?

Ele usou contra os curdos e contra os curdos do Irã. É horrível. Um dia usaram as armas químicas, o vento virou e voltou para o Iraque. Eu tinha um amigo que frequentava minha casa, um iraquiano que estava no front, ele ficou... não conseguia mais respirar, tinha 22 anos, não tinham mais força. Saddam fazia as reuniões ministeriais armado e, conforme o ministro incomodava ou discordava, ele já executava ali mesmo, na hora. Mas particularmente cruel era um filho que ele tinha, Uday.

O senhor conheceu Saddam. Como foi esse contato?

Ah, ele era agradável, simpático. Eu era diplomata, e ele tinha todo interesse em agradar o Brasil, porque nós estávamos dando cooperação nuclear. Então, nos tratava muito bem, tínhamos a porta do palácio aberta. Não pedia a saída de diplomatas, mas sabia como tornar a nossa vida insuportável.

O Iraque tinha um reconhecido serviço de inteligência. Vocês não eram espionados?

O famoso Mukhabarat. Eu mesmo fui seguido, mas consegui perceber porque era uma maneira burra, já que um deles não trocava a blusa e tinha uma camisa horrorosa verde. Daí, um dia, eu entrei em um ônibus e pensei: “Se essa criatura descer atrás de mim, ela está me seguindo”. E desceram. Também ficavam na frente da minha casa. Era muito desagradável. Os diplomatas eram proibidos de falar com os locais, coisa que eu não deixava de fazer.

Por que o senhor acha que era seguido pelo governo?

A informação é processada dentro da embaixada. Ela pode ser confidencial ou secreta, e você manda para o Ministério das Relações Exteriores, que separa, vê o que interessa e leva para o presidente da República. No caso da embaixada de Bagdá era diferente. Era o SNI (Serviço Nacional de Informação) que processava. Eles tinham gente lá dentro. O general passava para eles, e nós não tínhamos conhecimento. E a tua secretária, que necessariamente é local, era obrigada a fazer um relatório sobre tudo o que você faz e diz. Para se ter uma ideia da nossa dependência, nós precisávamos de 1,1 milhão de barris de petróleo por dia no Brasil e produzíamos acho que cinco ou 10 mil. Setecentos mil vinham do Iraque. Quer dizer, como é que se concentra toda a compra em um país só? É uma temeridade.

Foram quatro anos de privações e pressão. Quais eram os prazeres?

Você quer saber no particular? Uma pessoa que sabe que pode morrer amanhã, vai fazer o que hoje? Perdi o medo de muita coisa. Descobri que a minha companhia é boa também ao passar horas e horas sozinho no escuro.

Chegou a correr riscos físicos?

Eles estavam despreparados. Os aviões iranianos burlavam o radar e vinham abrindo caminho com metralhadoras na ponta da cabeça do avião. Os iraquianos tinham ninhos de metralhadoras nos edifícios e ficavam tão nervosos que, em vez de levantar a metralhadora em direção ao avião, faziam assim (aponta para baixo). Corria-se risco de vida toda hora. Talvez por isso eu tenha ganho condecorações do Exército. Uma vez fomos presos todos, a embaixada toda. Alguém bêbado bateu no carro de um colega, veio a polícia e começou uma discussão. Estávamos em quatro ou cinco. A gente foi falar com o delegado, isso umas duas da manhã, que estava deitado atrás da mesa dele, dormindo de farda e um cuecão. A gente caiu na risada. O delegado acordou e disse: “Vocês vão esperar até amanhã de manhã”. Mandou abrir a cela e nos colocou lá. Aí, veio um preso muito chique de robe de chambre, falando em inglês, e disse: “Olha, vocês tomem cuidado, eles são diplomatas. Vai dar problema muito sério”. Até estava achando engraçado, porque eu estava louco para sair do Iraque. Acabaram nos levando pra casa e pedindo desculpas. Foi o pior episódio, porque estávamos sem embaixador, e eu era o chefe.

O quão importante era o Iraque para o Brasil?

Até 1978, o Brasil não conseguia exportar serviços, principalmente de engenharia. O Iraque abriu as portas para nós, claro que pagamos um preço político. Permitiu que a Braspetro explorasse petróleo em Basra, onde os rios Tigre e Eufrates se juntam e deságuam no Golfo Pérsico. Onde era o paraíso de Adão e Eva. E o Brasil descobre o maior lençol de petróleo do Iraque bem na fronteira com o Irã. Isso aí coincide com um período difícil do Brasil, os anos 80, o segundo choque do petróleo por causa da Revolução Iraniana. O petróleo, que custava US$ 3 o barril, passa para mais de 30. A gente conseguia explorar petróleo e mandar para o Brasil a, digamos, US$ 13. Nós importávamos todo o petróleo do Iraque porque era mais barato e não tínhamos dinheiro.

E o que nós demos em troca?

A gente teve de votar (na ONU) dizendo que o sionismo era uma espécie de racismo, voto retirado nos anos 90. Depois, começamos a dar apoio total aos palestinos, quando, antes, tínhamos uma posição equidistante no conflito entre Israel e os países árabes. Mais a cooperação nuclear. Eu próprio entrei nos arredores do reator lá, fui mais de uma vez levar documentos, que não sei o que eram, porque só o SNI lidava com isso. Com a guerra, parte do petróleo para o Brasil passou a ser suprido pela Arábia Saudita. Foi feito um escambo também. Wolfgang Sauer, na época o presidente da Volkswagen, era muito amigo de um grande banqueiro turco. O Iraque precisava do dinheiro para o esforço de guerra e trocamos petróleo pelos Passat. Esse banqueiro comprou uma frota de caminhões cisterna, que buscavam o óleo na fonte, passavam pela Jordânia e iam para Alemanha, que dava o dinheiro para nós. Era uma triangulação, mas a maneira de continuarmos recebendo dinheiro.

Se isso não tivesse sido feito, o Bra...

O Brasil ia pras cucuias (interrompe a pergunta). O Brasil não tinha mais dinheiro para suportar o segundo choque do petróleo e também estava com uma inflação nas alturas, com demissões em massa, tendo acabado o período áureo do milagre econômico. O Iraque era essencial, e a gente faria qualquer coisa para continuar com aquelas relações naquele nível.Tínhamos, acho, US$ 10 bilhões em interesses. Era muito dinheiro.

Nelson Rodrigues disse uma vez que o maior terror de um diplomata brasileiro no Exterior era encontrar um compatriota. Onde acaba a piada e começa a realidade?

Não gostava muito de encontrar brasileiro, porque era sempre encrenca. Trabalhei em Milão como embaixador até 2002 e, só lá, tinha 20 mil travestis brasileiros. Havia honrosas exceções, mas a maioria ia para se prostituir, tanto feminina quanto masculina e de travesti. Meu melhor amigo era o chefe de polícia, porque toda hora eu tinha de encostar um ônibus e levar aquela gente toda que entrava ilegalmente. Eu dizia para (o governo da) Itália, vocês pagam a passagem (de volta para o Brasil) mas eles vão voltar. Tanto que a mulher brasileira tem uma fama terrível na Itália. Daí tem crime, tem droga, mas é por isso.

O que é preciso para subir na carreira? Linhagem, mérito, política, ou os três?

Sem mérito não dá mais. Se tu tiveres mérito, é muito mais fácil se tiveres linhagem. Sem linhagem, ou tem de trabalhar muito ou conseguir por fora. Dizia-se que só existiam dois que promoviam durante muito tempo no Itamaraty. O Antônio Carlos Magalhães e o Sarney. O Sarney acho que até hoje. Com o governo civil, passaram a recrutar gente dentro do Itamaraty. Por quê? Porque as carreiras hierarquizadas dependem de promoção e de remoção. Conclusão: bico fechado. Tem de ser uma carreira que você preze e goste, porque no dia que sair aquele governo, você cai em desgraça.

O senhor retornou a Teerã depois dos tempos do xá. O que mudou com a repressão sexual depois da revolução islâmica?

O que eu notei é que se fazia dentro de casa o que antes se fazia na rua. Teerã é uma cidade cortada por uma avenida que tem 50 quilômetros de uma ponta a outra. A cidade começa no Deserto do Sal e acaba nos Montes de Alborz. Do deserto até a metade da cidade, aplica-se a religião, chicotada, pedrada. Uma das poucas coisas que o Lula conseguiu foi acabar com a lapidação no Irã desde aquele problema da Sakineh (Mohammadi-Ashtiani, condenada à morte por adultério). Agora, eles matam a mulher com um tiro. À medida que se vai subindo em direção à montanha, os costumes vão afrouxando. O suborno aplaca a ira da polícia religiosa. Qualquer carro particular pode levar passageiro, pois os táxis não são suficientes. Então, a mulher que quer se prostituir para na rua e na hora que passar um carro bonito, ela entra. Se a polícia religiosa chega, ela diz que é táxi. A raposa perde os pelos, mas não perde os vícios.

A vida de um diplomata é quase como a de um nômade. O senhor não chegou a casar?

Não, não casei e não pretendo. Mas acho que tem mulheres que ajudam muito na carreira e outras que acabam com a carreira do marido.

Alguma saudade da ativa?

A sensação que eu tenho como aposentado é muito boa, é uma sensação de liberdade. Passei minha vida me policiando, porque tudo que tu fazes no Exterior tem consequências, tem a imprensa em cima da gente. Não pode dar declaração, não pode falar. Você é sempre um estrangeiro, não posso criticar o país onde estou. Comecei outro ciclo, choveram propostas de trabalho, mas aceitei. Escolhi desfrutar.

“Tocava uma sirene para a gente correr para os abrigos e, por muito tempo, já no Brasil, tocava uma sirene de polícia, e eu corria “

“O Iraque era essencial, e a gente faria qualquer coisa para continuar as relações naquele nível”

Zero Hora – Saddam Hussein, o aliado do regime militar

Em setembro de 1980, começa a violenta guerra entre Irã e Iraque. O mundo é asssolado pelo segundo choque do petróleo, no qual o preço do produto, essencial para qualquer economia moderna, dispara. O Brasil de então tinha uma escassa produção nacional e importava quase tudo que consumia do Iraque.

– Dizia-se que chegamos a mandar urânio enriquecido para lá em avião de passageiros, mas havia uma guerra de informação do lado brasileiro e iraquiano. Israel descobriu indícios e divulgou na imprensa. O voo fazia Bagdá-São Paulo pela Iraqi Airways a pretexto de levar e trazer funcionários para a Mendes Júnior – lembra Tutikian.

Na ocasião, cerca de 20 mil brasileiros estavam no país, muitos contribuindo no esforço de guerra.

– Eles nos financiavam para que a Avibrás e outras empresas brasileiras desenvolvessem armas para o Iraque. Fornecemos desde tanques, os Urutus, até mísseis. Mandamos mais de 30 engenheiros do ITA para lá, com o brigadeiro (Hugo de Oliveira) Piva, para melhorar os mísseis que vinham da Coreia do Norte e que não alcançavam Israel. Nosso pessoal fez alcançar Israel e a Arábia Saudita – conta.

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Diários da Política: Mais um Bush?

Diários da Política é coluna* de Márcio Coimbra**

JebBush A coalizão judaica se reuniu no Nevada na última semana. Como escrevi em minha coluna no Diário do Poder da última semana, este é um evento fundamental para os pré-candidatos que possuem pretensões presidenciais. Dali surgem doações expressivas de campanha que podem reordenar os rumos dos pretendentes. Este ano, a coalizão resolver ouvir Chris Christie, o republicano mais bem posicionado nas pesquisas, mas também deixou a porta aberta para outros nomes.

A reunião foi fechada e segundo os comentários que circulam pelo mundo da política, Christie saiu-se bem, entretanto, o grupo ainda encontra-se cético em relação aos desdobramentos da crise política que se abateu sobre New Jersey diante do fechamento deliberado de faixas da ponte mais movimentada dos Estados Unidos. Os doadores gostaram de Christie, mas ainda precisam enxergar que o Governador saiu ileso deste episódio.

O orador mais esperado foi Jeb Bush, que falou na abertura. Segundo as informações dos bastidores, ele foi aquele que mais empolgou. Seria a melhor alternativa para os que estavam na reunião. Bush, entretanto, ainda não assumiu se deseja concorrer. Sou da opinião de que ele sairá candidato. Sua movimentação explícita em eventos de apoio a outros nomes do partido para as eleições deste ano e sua passagem por muitos estados evidenciam que algo está no ar. Somente por ter participado do encontro em Las Vagas, vemos seu interesse em concorrer.

Bush, portanto, seria o preferido. A coalizão, entretanto, deixou a porta aberta para outros nomes, caso o preferido não siga em frente em suas pretensões presidenciais. Christie segue sendo uma opção, mas precisa provar que venceu a crise. Diante deste quadro surgiram dois nomes: Scott Walker, presente no encontro, e Marco Rubio, que já deixou claro que deve entrar na disputa.

O fato é que o nome de Bush surgiu com muita força. Sua família tem as conexões necessárias para alavancar sua candidatura e o círculo mais importante de doadores deu seu aval. Resta ao ex-Governador da Flórida decidir. Se concorrer, larga com força dentro do partido.

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*Márcio Coimbra é correspondente Coisas Internacionais, em Washington, D.C. Também colabora com o portal Poder Político e com o BrasilPost.

**A Coluna Diários de Política circula normalmente aos domingos.

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Educação diplomática, por Francisco Seixas da Costa

Food_dinner_eng Todos nós que já estivemos em missões internacionais já passamos por situações como a que descreve o embaixador português Francisco Seixas da Costa. São ‘saias-justas’ que decorrido tempo suficiente se tornam anedotas interessantes e divertidas do dia-a-dia dos que se dedicam as coisas internacionais. Ainda lembro da insistência da Professora Leila Bijos para que tivéssemos SEMPRE a postura que o diplomata relata quando participamos de nossa primeira missão acadêmica ao exterior, mesmo diante de pernas de rã (que por sinal estavam ótimas). Lições úteis até hoje professora.

Educação diplomática

Por Francisco Seixas da Costa

O "jet lag" não ajudava nada. Naquele primeiro dia em Seul, mais do que seguir o calendário de eventos daquele seminário, eu morria de cansaço. Mas o "dever" chamava-me: cabia-me co-presidir a um exercício que pretendia retirar, da experiência da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, lições para a gestão das tensões na península da Coreia. Coordenava uma delegação multinacional ida de Viena, tendo como meu contraparte o secretário de Estado coreano dos Negócios Estrangeiros, velho amigo de outros postos.

O programa de uma das noites incluía assistir uma peça de teatro coreano, a que se seguia um jantar num restaurante típico. Estafado como estava, passei "pelas brasas" no espetáculo, aproveitando a redução das luzes. Chegados ao restaurante, um espaço tradicional, percebi que nos íamos sentar "à coreana", em almofadas e com as pernas cruzadas sob uma mesa baixa, o que iria pôr à prova os meus sacrificados joelhos. Mas, pronto!, era serviço!

Por feitio, não sou muito dado a experiências gastronómicas radicais e, muito em especial, sou habitualmente avesso a culinárias étnicas. Por isso, à vista dos pratos locais, fui fazendo uma seleção criteriosa sobre aquilo que neles me apetecia comer. Até que chegou o prato principal. Nunca consigo recordar o que era; só sei que era algo "sinistro", pelo cheiro e pela prova. Com alguma arte, fui afastando a comida pelo prato, enquanto alimentava a conversa com o meu contraparte, sentado à minha frente. A certo passo, notando que eu já não comia e muito do que fora servido já estava disperso, o anfitrião coreano perguntou, preocupado:

- Não gosta da comida?

Senti-me culpado pelo facto de não estar a corresponder à sua gentileza, pelo que me saiu qualquer coisa como isto:

- De forma nenhuma! Estava muito bom! Gostei imenso, mas já acabei.

O que eu fui dizer! O meu amigo coreano, temeroso que eu não tivesse ficado saciado, e apoiado no meu pronto elogio à sua comida nacional, logo mandou vir para mim uma nova dose, idêntica àquela que eu tinha dispersado com tanto cuidado pelo prato. E lá tive eu que comer aquela mistela, desta vez com escassa capacidade de disfarce. Foi uma noite bem penosa, confesso! A educação diplomática, às vezes, tem um elevado preço.

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ZunZuneo e o gato e rato da inteligência versus contra-inteligência nas redes sociais

cubacelular A Associated Press – AP publicou hoje uma reportagem (versão publicada pelo Washington Post, em inglês e aqui na Exame, em português) que, não tenham dúvidas, vai incendiar o debate político nas redes sociais e será o assunto da América Latina, talvez, apenas abaixo da repressão venezuelana. Trato da reportagem que revelou uma operação secreta de fomento da democracia levada a cabo pela USAID que em nada fica devendo as operações clandestinas da CIA.

A operação ZunZuneo foi uma tentativa de insuflar e acelerar a difusão de informações de modo a enfraquecer a máquina de propaganda e repressão do governo totalitário, do Partido Comunista Cubano. A idéia central era burlar o bloqueio a internet pelos censores dos irmãos Castro se valendo de uma rede social móvel baseada em mensagens de texto.

Para isso foi necessária a obtenção (ilegal, por sinal) de números de telefones móveis cubanos, que foram providenciados por um dissidente, que disse a AP, que não sabia que deu a pessoas que eram ligadas ao governo dos EUA, mas que faria o mesmo se soubesse. Esses números serviram de base para o início do serviço, que segundo os memorando obtidos pela referida reportagem as mensagens deveriam ser sobre esportes, músicas, eventos climáticos extremos e piadas que não deveriam ser politizadas até que a rede tivesse uma massa crítica suficiente para que pudessem ser efetivos, além disso, a rede também permitiria a troca livre de mensagens entre cubanos a baixo custo, já que as taxas praticadas pela estatal cubana de celulares são elevadas e, portanto, proibitivas para a maior parte dos cubanos.

A reportagem narras os esforços dos responsáveis pelo programa em criar uma trilha que levassem quem investigasse as empresas envolvidas com o ZunZuneo para longe dos EUA, mas também demonstram como os gestores da USAID tentaram encobrir o programa da supervisão parlamentar e de como a maneira como gerenciado exibiu um tipo de comportamento típico de agências de inteligência.

O problema com isso é que os programas da USAID são primariamente voltados para a assistência para o desenvolvimento e para isso dependem que os países anfitriões permitam a sua presença, usar um programa de cooperação internacional para fins anti-sistêmicos não é novidade, mas causa problemas, tanto que a própria agência americana tem protocolos de proteção em lugares sensíveis e governos não-cooperativos ou hostis.

A operação não frutificou em seus objetivos por que não conseguiu fonte de financiamento que tornassem a operação sustentável e por que subestimaram a sofisticação da contra-inteligência cubana, que foi capaz de perceber a ameaça e reagiu como sempre faz, censurando rapidamente.

Cuba é a mais longeva e mais sanguinária ditadura do continente, mas ocupa um espaço grande no imaginário romântico dos coletivistas revolucionários e por que tem essa aura de rebeldia supostamente antiimperialista a repressão e o cerceamento da liberdade levado a cabo pelo regime é sempre relativizado e as críticas são descartadas geralmente com palavras de ordem do tipo “neoliberal”, “colonizado”, etc. Mas, nada disso pode mudar a essência de uma ditadura que é o arbítrio e a violência, ou como explicitou Mao Tsé-Tung: “O poder político deriva do cano do revólver”.

A operação descrita na reportagem mostra como uma operação de inteligência pode falhar miseravelmente e ainda no processo ter gerado ganhos financeiros para o regime que se pretendia derrubar, além de servir de munição para marcar qualquer dissidente como agente estrangeiro, a eterna desculpa dos totalitários para extirpar direitos de expressão, liberdade e até mesmo a vida de dissidentes.

Revela ainda o tamanho do impacto das redes sociais na difusão de idéias conhecimentos e como essas redes podem ser usadas e manipuladas e não tenham dúvidas todas as correntes de opinião e regimes estão na web difundindo seus interesses e como nos ensina esse caso real usando true believers que acreditam na causa da democracia e liberdade para o povo cubano, mas não necessariamente gostariam de se envolver numa operação clandestina do governo americano para esse fim.

A operação falhou, mas ficou uma lição para nós observadores da vida internacional que mais uma vez mostram como estava errado Krugman e seu famoso deslize (que por sinal ele tenta explicar aqui) de que a Internet não teria impacto maior que o dos aparelhos de fax e não se pode ignorar as relações entre fluxos de conhecimento e a interação social e a formação de correntes de opinião transnacionais que pareciam até pouco tempo construtos teóricos de difícil visualização.

Antecipo a sensação de estranheza que terei ao constatar que na semana que se lembraram os cinqüenta anos do golpe de estado que introduziu uma ditadura militar de 21 anos no Brasil, muitos dos meus compatriotas se levantarão indignados na defesa de uma ditadura.

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Evento: II Encontro Acadêmico Cientifico de Relações Internacionais - EACRI, Goiânia, 19-23/5

cartas EACRI O Centro Acadêmico Sérgio Viera de Melo – CARISVIM e o Curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Goiás – PUCGO organizam o II Encontro Acadêmico Cientifico de Relações Internacionais – EACRI que tem como tema: “Inserção internacional da América do Sul: Desafio e perspectivas”. Que será realizado na Área I, da PUC-GO entre os dias 19 e 23 de maio, em Goiânia.

Abaixo o release do evento

“Em nome do comitê organizador do II Encontro Acadêmico Científico de Relações Internacionais (EACRI), venho convidá-los a participar conosco desse grande evento. O II EACRI realizar-se-á entre os dias 19 a 23 de maio na área I da PUC Goiás, e será norteado sob a temática: Inserção internacional da América do sul - perspectivas e desafios. O evento está organizado em forma de palestras, debates, apresentações de artigos acadêmicos e uma simulação interna ao molde das Nações Unidas. As inscrições já estão abertas. O EACRI é uma ótima oportunidade para colocar em prática os conceitos expostos em sala ao longo da graduação, e o tema é vasto, abrindo um leque para boas discussões.

Para mais informações sobre o II EACRI e sobre as inscrições, acesse o link: http://bit.ly/2eacri

Fan page: https://www.facebook.com/2eacri?fref=ts” [Grifo Nosso]

O evento será muito bom e com atividades diversificadas que vão da Simulação da ONU ao Cine-debate passando por palestras, inclusive com esse modesto escriba, que estará compondo a mesa de debate da atividade final do dia 22. Além de todos os benefícios acadêmicos é a chance de visitar e/ou conhecer a belíssima capital de Goiás. Não percam.

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BBC E CEBRI: “Brazil’s Global Role: losing momentum?” 02/04- RJ

O Centro Brasileiro de Relações Internacionais – CEBRI e a BBC organizam o evento “Brazil’s Global Role: losing momentum?”, no auditório da ESPM, Rua do Rosário, 90, Centro, Rio de Janeiro, RJ.

Evento sensacional, mas com vagas limitadas, portanto corram. Todas as informações sobre inscrições, moderadora e debatedores estão no cartaz abaixo.

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Pensamentos sobre individualidade e egoísmo, por Rafael Falcão

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Compartilho com vocês um interessante ensaio de Rafael Falcão, nosso futuro, correspondente na China, que numa ironia geográfica nos manda de lá uma reflexão sobre individualidade.

Pensamentos sobre individualidade e egoísmo

Por Rafael Falcão

Ouço e leio por aí tanta gente criticando o individualismo, exortando que vivemos numa comunidade, portanto temos de dar muito mais importância ao que chamam de "bem comum" e não pensarmos apenas nos nossos interesses.

Então quando peço para definirem o que chamam de individualismo, basicamente é pensar apenas em si mesmo sem avaliar as consequências de nossas ações nas outras pessoas. Realmente se trata de uma das possíveis definições desta palavra. Segundo o dicionário Michaelis Online, individualismo é: 1 Posição de espírito oposta à solidariedade. 2 A capacidade de poder existir separadamente. 3 Existência individual. 4 Teoria que fez prevalecer o direito individual sobre o coletivo. A língua é algo mesmo traiçoeiro, muitas vezes chamamos com um mesmo nome  ideias diametralmente opostas, contraditórias ou que abrangem significados positivos e negativos, ou seja, ao mesmo tempo que é algo oposto à solidariedade, é também a capacidade de viver separadamente. Neste caso em particular, me causa muita confusão chamarem individualismo de enxergar apenas o próprio umbigo. Vai muito além disso. A primeira definição, a meu ver, se parece mais com a de egoísmo.

Egoísmo: 1 Qualidade de egoísta. 2 Amor exclusivo de sua pessoa e de seus interesses. 3 Conjunto de propensões ou instintos adaptados à conservação do indivíduo. 4 Comodismo. Eis aí uma definição clara e bem precisa de um tipo de sentimento, sem necessidade de abranger outras ideias que pouco tem a ver, excetuando o ponto 3, mas que mais diz a biologia que à filosofia ou sociologia.

Acho importantíssimo darmos nomes diferentes a capacidade de vivermos através de nossos próprios esforços e respeito a cada pessoa como sendo uma pessoa única do conceito de amor exclusivo de sua pessoa e de seus interesses, afinal é bastante possível uma pessoa ser independente e não ser egoísta.

Cada pessoa é única, não é questão de opinião, é um fato. Mesmo gêmeos univitelinos criados juntos podem ter características psicológicas bem diferentes, um calmo e outro agitado, um trabalhador e outro preguiçoso, um mais sociável e outro mais introspectivo. A meu ver, eliminar essas diferenças e classificar um grupo de pessoas como povo, como determinada classe social, ou qualquer agrupamento, é deveras injusto e talvez perigoso.

Agrupar tem como por objetivo separar elementos que possuem uma qualidade de outros que não possuem esta qualidade, ou seja, sou brasileiro tal qual todos os outros que nasceram neste território chamado Brasil, assim como meu vizinho é um argentino porque nasceu no território da Argentina, ou seja, o denominador comum é o nascimento em determinado território. Mas uma pessoa é muito mais que apenas brasileiro, roqueiro, fã de futebol, advogado ou qualquer outro grupo em que esteja inserida, ela tem seus próprios anseios, seus próprios sofrimentos, suas próprias expectativas. Claro que somos seres, por natureza, sociais e necessitamos de pertencer a grupos, mas somos muito mais que membros indistintos, por isso considero como injusto.

Por mais que trabalhe e se esforce, um professor não pode abrir a cabeça de um aluno com uma chave e depositar um conhecimento, mesmo que esse professor conheça técnicas de lobotomia, se o aluno não fizer por si mesmo o esforço de tentar processar o conhecimento para buscar o sentido e a lógica dele, o conteúdo entrará por um ouvido e sairá pelo outro. No Livro dos Espíritos, de nosso caríssimo Codificador, vários irmãos reiteram o papel do esforço do indivíduo como primordial para sua elevação. Gosto muito da analogia de que livros e mestres são como placas em uma estrada: apontam-nos o caminho, mas nossos pés é que nos fazem chegar ao destino. Claro, sem contarmos com a possibilidade de pegarmos uma condução.

A existência e o livre arbítrio são os maiores presentes que nos deu a Divindade. Existimos, portanto podemos sentir, amar, sofrer. E o livre arbítrio é a permissão divina para escolhermos como amar, sentir, sofrer. Ora, Ele não criou uma massa de autômatos, mas sim seres únicos com vontades próprias.

E por quê é perigoso que nos classifiquem apenas como um grupo indistinto de pessoas? Temos mesmo necessidades e vontades que são comuns a todos, mas há um limite, pois há sempre alguém que define o que é o melhor para um grupo, os líderes, que chamam de "bem comum", quando muitas vezes são as vontades individuais destes líderes disfarçadas de vontade do grupo. Ou mesmo que o líder aja de maneira bem intencionada e queira mesmo o melhor para seu grupo, o excesso de uniformização de necessidades e vontades permitidas tem um nome: tirania. Viver sob o jugo de um déspota bem intencionado, como dizia um escritor, talvez seja pior que viver sob um barão do crime, pois o último pode ter sua ganância saciada por algum momento e relaxar os grilhões dos escravos, enquanto o tirano bem intencionado vai oprimir e conseguir descansar sua cabeça no travesseiro tendo a consciência limpa de alguém que faz o bem. Obviamente que é impossível uma liberdade total, mas liberdade implica não apenas agir como bem entender, também cabe sofrer as consequências de seus atos. Por isso que para além dos direitos, existem também os deveres, a cada ação, como nos diz uma das leis de Newton, há uma reação.

Como definir os limites da liberdade? Muitos pensadores durante toda a história da humanidade debruçaram-se sobre tal pergunta. Um deles, particularmente brilhante, deu-nos uma solução bem simples: não fazei aos outros aquilo que não quereis que não vos façam. É muito simples, porém creio que todo código de leis moderno se baseia nesta máxima, que ao mesmo tempo que protege o indivíduo de outro indivíduo, também protege o indivíduo de uma tirania de um grupo. Vejam que a máxima não diz "não fazei aos outros aquilo que não quereis que não vos façam, desde que não seja para o bem comum". Muito se fala hoje em direitos de minorias, mas como segundo a notável escritora Ayn Rand, "a menor minoria na Terra é o indivíduo. Aqueles que negam os direitos individuais não podem se dizer defensores das minorias."

A maior das virtudes, segundo nosso Mestre, é a caridade, pois fora dela não há salvação. A noção de caridade é perfeitamente compatível com o individualismo, afinal quando ajudamos ao próximo, primeiro que, de acordo com as leis Divinas, o bem é sempre recompensado. Segundo, já que somos seres sociais, se ajudamos a melhorar a condição de um irmão, por conseguinte ajudamos a desanuviar pelo menos um pouco o clima geral da sociedade a qual fazemos parte, tornando mais agradável a convivência nesta.

Já o egoísmo é uma espécie de individualismo de visão imediata: posso prejudicar alguém para conseguir uma vantagem, mas até que ponto essa vantagem é duradoura? Pode ser um pequeno ganho agora que vai levar a uma perda considerável no futuro, como uma criança que se empanturra de doces mas que logo vai ficar com os dentes rotos e não poder mais desfrutar desses doces por um bom tempo.

É importante que saibamos distinguir bem o ser independente do ser egoísta, de desejar o melhor para os outros e ajudá-las no que for preciso, mas deixando-os livres para escolherem a maneira de como melhorarem-se, assim como para sofrerem as consequências de suas ações, sejam elas boas ou más, com o fim de galgar mais um degrau na escala evolutiva.

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